Vá embora para Porto Alegre

Quando entrei na Faculdade eu imaginava que a conclusão do curso me daria a perspectiva de um emprego estável. Triste engano. Logo após a formatura, senti uma solidão perturbadora. Eu necessitava encontrar minha redenção. Nessa época decidi fazer uma especialização. No último dia de aula, um professor falou o seguinte:

“-Convido vocês a conhecerem o programa da Pós-graduação em Porto Alegre.”

Nesse exato instante, fui teletransportado para um parque enorme. Lá estava eu caminhando entre folhas de outono em uma manhã do mês de março.

Aquele sonho acordado despertou a vontade de fazer um intercâmbio. Fiz uma pesquisa sobre vários lugares. Mas, toda vez que digitava o nome daquela cidade no Google eu sentia meu coração bater mais forte.

Entretanto, eu me sentia culpado por pensar em deixar a minha família. Nesse mesmo ano, eu desenvolvia um trabalho voluntário em um movimento da Igreja. Eu arrumava desculpas para não seguir o meu sonho. Eu mesmo boicotava minha felicidade, sempre com o discurso de que era preciso renunciar, para fazer outras pessoas felizes.

Eu não tinha sequer coragem de falar pra mim mesmo, imagine, então o medo que eu sentia em conversar com pessoas sobre o assunto. Comecei a fazer terapia para poder externalizar aquela vontade de ir embora. O processo de aceitação do caminho começou a acontecer. Em um determinado dia fui deixar minha mãe em consultório médico e falei sobre o plano.

“Meu filho, lembra daquela música que fala que não adianta fugir, nem mentir para si mesmo agora. Há tanta vida lá fora? Pois é. Sinto um nó na garganta só de pensar em viver longe de você. Mas, eu abro mão do meu egoísmo para dizer que tens liberdade para voar sozinho.”

Com a certeza de que tudo se ajeitaria sem a minha presença, tomei a coragem de Manuel Bandeira: “Vou-me embora para Pasárgada.”

E foi assim que deixei tudo para trás rumo ao desconhecido. Minutos antes do avião pousar no novo destino, eu escutei um aviso do comandante:

“Bom dia, senhor passageiro. Estamos prestes a realizar o nosso pouso. Faz 16 graus em Porto Alegre. Aproveite cada instante dessa oportunidade de renascimento para ser quem você é”.

No dia em que pisei no Parque Redenção e vi aquelas folhas de plátano simbolizando o outono, me lembrei exatamente do sonho que me fez chegar até ali. Compreendi que Redenção simboliza justamente a metáfora da busca pela minha liberdade.

Se eu pudesse escrever uma carta para aquele menino inseguro do interior da Paraíba, eu escreveria:

“Vá embora para Porto Alegre. More em um pensionato. Você terá a chance de dividir teto com pessoas de Moçambique, Colômbia, Argentina, Minas, Mato Grosso e Paraná. Você aprenderá muito mais sobre o que é ser humano em dois anos do que toda sua formação na escola. Aprenda a cozinhar feijão. Descubra o que é Reiki. Se permita a viver as histórias mais contraditórias: das risadas mais sinceras ao choro mais devastador, do espetáculo da Maria Bethânia ao show da Lady Gaga.”

Hoje sinto que todo mundo precisa de um porto para ser alegre. Mas, é preciso tomar coragem para cortar o cordão umbilical e se tornar protagonista da própria história. É preciso se distanciar da vida comum para enxergar além.

No final das contas, a melhor viagem acontece dentro de você. Porto Alegre pode ser bem aí onde você está ou pode ser bem esse lugar que faz sua mente suspirar. Portanto, se o seu coração bater mais forte quando escutar um sinal, não tenha medo. Se arrisque e assuma a coragem de ancorar sua existência em um porto que te faça alegre.

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Thiago Hanney
Escritor, Professor e Storyteller. Compartilho histórias guardadas nas gavetas do meu armário.



2 COMENTÁRIOS

  1. Thiago querido, que lindo texto! Passei minha infância em Poa e dos lugares mais magicos que me recordo, ainda cm o olhar de criança, é a Redençao. Tbm sou uma aventureira qndo a questao é realizar meus sonhos e tbm fui incentivada ao ouvir uma frase de um professor na faculdade. Hoje, graças ao Universo em sua bondade, tenho alguns lugares e pessoas que posso chamar de meu porto alegre!

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