Senta aí, vamos falar de razão e emoção

“Fundamental é mesmo o amor. É impossível ser feliz sozinho.” Na verdade, é. Mas não tem graça ser feliz se não tivermos com quem compartilhar. E além do mais, que vida cinza essa sem amor. Sem paixão. Dividir alegria com amigos é quase, mas dividir alegria com um amor, é pleno.

Após longos períodos trabalhando, jogando, estudando, se preocupando ou até amando, é necessária uma pausa. Os momentos bons são para o desfrute, os ruins, para aprendizado. Aqueles que apenas desfrutam, param no tempo do ócio, das festas, da falta de auto conhecimento e de utilidade. Sair e experimentar de tudo, ajuda a nos conhecermos mais, é claro. Porém, toda essa liberdade, se não acompanhada de momentos de silêncio e reflexão, de nada vale. Afinal, marionetes da vida, vemos todos os dias. Pessoas que vivem loucamente como se não houvesse amanhã, consumindo tudo de possível que o mundo produz. Articulam-se como experientes, mas quando tentamos puxar o assunto um pouquinho mais para o alto, se colocam na posição de seres espirituais, que estão aqui por algum motivo que é muito especial e que o chá de cogumelo as mostrou que a consciência é apenas a ponta do iceberg de um infinito de sentimentos e almas que existem neste mundo. Nada contra. São boas pessoas para passarmos um tempo. Mas chega o momento em que é necessário se recolher. Se desligar, parar de consumir, de falar, de ouvir, de escrever, de beber, de fumar. Falta hoje em dia o momento de auto reflexão. Falta tempo para a auto avaliação.

Falando em auto avaliação, vamos falar sobre aquilo que tanto nos desconcerta. Vamos falar de amor, senta ai. O que seria o amor senão a principal inquietação da humanidade? E o que seria a principal inquietação da humanidade senão a maior droga a que um ser humano é capaz de se viciar? A paixão é a droga que tem seu efeito mais duradouro. Segundo alguns, dois anos, segundo outros, a vida toda e, para alguns, uns dias, outros menos… mas a verdade é que não dura apenas algumas horas, ao contrário das drogas criadas pelo ser humano ou pela natureza. A paixão, fogo inicial do amor, é nossa droga pessoal, interior, fabricada e destruída por nós mesmos. Por isso, trouxe alguns pensamentos sobre o amor, a paixão e a razão, vindos de momentos de auto reflexão…

1) Não é preciso amar para estar apaixonado.

Paixão é intenso. Amor, é com o tempo. Não diga que ama em vão. Amor é mais que isso. Para estar apaixonado não é necessário amar. Podemos nos apaixonar por aquilo que nos destrói, mas não amar. Tendo consciência disso, não sofremos mais por qualquer porcaria de empolgação. Paixão dá e passa. Pode acontecer mil vezes. Amor é raro. Amor sustenta, amor prevalece, amor dá forças. Paixão tira forças.

2) Quanto mais namoramos, mais tendemos a pensar em namoro.

Neste momento de reflexão eu os convido a repensarem alguns pontos. Reconhecer que quanto mais namoramos, mais nos acostumamos a ter alguém por perto. Cuidado… Carência é uma coisa. Amor é outra. Mas só amamos se somos carentes também. Confunda-se.

3) Quanto mais terminamos, mais preparados ficamos.

Menos frustrados estamos. Menos sofrimentos temos e menos dispostos a nos apaixonarmos nos tornamos. Agora já nos vemos cansados deste jogo. A maturidade sentimental nos leva a reconhecer que nem tudo é como queremos e que aqueles que mais demos valor foram os mesmos que mais nos decepcionaram. A vida vai se tornando chata. Cuidado! Voltemos um pouco mais agora, para que tudo possa voltar ao normal, sem que precisemos sofrer pelos mesmos erros novamente.

1) Que critérios você usou para entregar seu coração a alguém?

Quando foi que passamos a dar muito valor a este que tanto nos decepcionou? Que coisas em troca percebemos daqueles que tanto amamos antes? Fomos cegos e intensos esperando que aquelas pessoas fossem nos completar e fossem ser a luz do nosso caminho. É. Não foram mesmo. Nunca foram. Somos todos individuais ainda que juntos. As pessoas servem para acrescentar, não para substituir a falta de você faz a si mesmo.

Segundo a psicologia, tendemos a amar aqueles que representam aquilo que nos falta. Péssima ideia, humanos. É por isso que quebramos a cara. Nos doamos cegamente para aqueles que esperamos que resolvam nossos problemas. Não resolverão. Nem tente. E o pior é nos abrirmos sem que estes nem se deem ao trabalho de, antes mostrarem suas características para que decidamos nos entregar ou não. Aprendamos que os passos são dados um de cada vez. É apenas isso. Você dá um passo e espera que o outro dê e fique ao seu lado. Se ele não der, pare. Apenas não saia correndo enquanto o outro quer ficar parado esperando você se jogar de um abismo sozinho.

Tendo a consciência disto, passamos então, a buscar aquilo que nos falta em nós mesmos, caso contrário, quando pegarmos do ser amado aquilo que nos completa, brevemente o descartaremos como “uma lição aprendida para a vida”. Ou diremos: “A química acabou, querido”. Ou então, usamos esta pessoa como um suporte, uma bengala, para apoiarmos nossos medos e indecisões, quando não formos capazes de aprender as lições que pretendíamos aprender.

2) Você está procurando sorvete no açougue?

Veja bem… Você quer o amor da sua vida. Quer uma pessoa tranquila, confiante, responsável e tudo mais… Mas você se nota gostando de uma pessoa que te diz que a vida é um mar de rosas, que não existem problemas, que tem que acreditar na energia da atração. Filha, tudo o que você terá será um líder pseudo-profético ao seu lado. Não espere que alguém assim passe a acordar cedo para lutar por algo. Afinal, as energias farão por ele. Utilizando a mesma metáfora, não procure características que você quer enxergar em pessoas que te verbalizam outra proposta de vida. É libertador conhecer gente alternativa, mas isso não se sustenta a longo prazo. Tente criar filhos no mundo de hoje com alguém que dorme até meio dia e passa o dia jogando, pois “a vida é muito mais que sofrer no trabalho”. Depois me conte como foi.

3) Entenda que quanto mais velhos ficamos, mais exigentes nos tornamos. E isso é bom.

Após viver uma série de namoricos, passamos e notar repetições de padrões e de erros. Se passamos a ir com muita pressa, notamos e freamos. Se a pessoa nos machuca duas ou três vezes, é o suficiente. Jamais voltaremos aos romances adolescentes de idas e vindas infinitas. Se a pessoa dá uma mancada como tratar mal o garçom, já temos que muitos problemas existem na personalidade dessa pessoa e repensamos se devemos prosseguir ou não. Notamos ali que o problema não é só o garçom, mas este alguém.

4) Nos permitimos a sofrer cada vez menos. Isso é amor próprio.

Na época da escola eram os amores platônicos que duravam meses ou anos. Não importava muito mais do que a beleza da pessoa amada. Na faculdade, eram os romances intensos, com idas e vindas e lamentáveis choros desesperados por aquilo que, no fundo, sabíamos que daria errado desde o começo. Passamos a questionar se a beleza põe mesa. Ditado antigo, mas que hoje se aplica a: um rostinho bonito é suficiente para meus sentimentos e necessidades? Depois, tudo passa a ser muito bem ponderado e tudo o que precisamos não são mais certezas de planos para a vida toda, mas sim, de aproveitar os bons momentos e viver o presente. Já temos a consciência de que tudo pode acabar de uma hora para a outra e, por isso, não vamos de cabeça, vamos aos poucos, doando na medida em que recebemos. Já sabemos também que somos fruto de cada pessoa que passou por nossas vidas e que todas serviram de amadurecimento, crescimento e experiências, então, passamos a ver o relacionamento como algo a acrescentar, e não, como algo para nos salvar dos nossos problemas. Aprendemos que os amigos devem ser sempre cultivados e que ninguém vive feliz apenas ao lado de uma única pessoa. Pode durar algum tempo, mas depois o vazio volta. Já somos maduros o suficiente para sabermos que ninguém deve nos completar além de nós mesmos e que o outro está ali do nosso lado para dividirmos coisas boas, bons sentimentos e alegrias. Não tornemos mais nossos futuros namorados em penicos para despejarmos nossos problemas. Não esperemos que o outro nos salve. Não é porque o outro se tornou a pessoa mais próxima, que devemos relaxar e transformar a relação num vaso sanitário para jogar as merdas de nossas vidas. Aprendemos que nossos sorrisos dependem mais de nós do que do universo e que nosso sucesso ou fracasso depende de como encaramos o mundo. Já entendemos o que é ego e o que é sentimento. Muitas vezes nos sentimos loucos para correr atrás de alguém que nos rejeitou, apenas por ego… Dane-se o ego. É bom que voltamos a sermos humanos. Nada como um pé na bunda para percebermos que não somos a última bolacha do pacote. Já aprendemos também que carência não é sentimento pelo outro. De nada adianta querer o outro por perto se não nos sentimos bem ao lado da pessoa, se não percebemos que justamente esta pessoa nos faz falta e não qualquer outra… Aprendemos que gostar muito de alguém não significa criar planos para a vida, mas que apenas gostamos da pessoa. A partir daí, vamos pensando no restante.

Mas a lição mais importante de todas e que só aprendemos com reflexão, buscando momentos sozinhos e a nos auto-avaliar, é que… nada nem ninguém é perfeito. Por isso, como bem diz minha querida Tribo de Gonzaga, “se o amor é ilusão, oh menina, eu quero me enganar”. Pois de nada adianta ficarmos calejados, bloqueados, fechados e nos tornamos meias pessoas, meios sentimentos, meias verdades, meias entregas, meias alegrias, meias tristezas, meias palavras, meia vida.

Utilizemos de nossos aprendizados para selecionarmos melhor as pessoas com quem nos relacionamos. E isso só vem através da relação verdadeira, da conversa verdadeira, de horas juntos, da vivência inteira, por completo.

Com o tempo, passamos a perceber também, que a vida passa, que podemos morrer amanhã, hoje, agora. E que a vida é muito curta para se acorrentar a medos e traumas. Passamos a aproveitar, portanto, melhor as oportunidades que a vida nos apresenta e, também, a selecionar mais rapidamente se aquilo pode ser ou não uma boa ideia. Se não for, nos abrimos logo para algo melhor e novo. Mas apenas nos deixamos iludir na medida em que queremos. Sabemos que a razão tira a emoção e que o excesso de emoção bloqueia a razão. No todo, preferimos a emoção. Mas no fundo, já que aprendemos com a razão, agora já sabemos lidar com a emoção. E por isso, podemos escolher a emoção com razão.

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Domie Lennon
Nasceu em Petrópolis-RJ, mestranda e graduada em Relações Internacionais pela Universidade do Brasil! Tem interesse em tudo que se pode imaginar, até química, física, logaritmo e quadrantes. Sempre adorou escrever e coleciona caixas de textos que escreve desde a infância. Seja sobre poesia da vida cotidiana ou sobre assuntos políticos, filosóficos, antropólogos, científicos, sua vida é de uma forma ou de outra ligada à tentativa de olhar o mundo com mais profundidade do que a correria da rotina nos permite. Nada lhe escapa, dos assuntos cotidianos às condições políticas que acontecem ao redor. O que varia é o horário, a inclinação do olhar ou da cabeça também... Quer falar todas as línguas do mundo... ou quase. Quieta de vez em muito, nada como a introspecção para refletir a vida um pouquinho. Mas também pode fingir ser a pessoa mais extrovertida do mundo se quiser. E engana bem. Da personalidade mais rara do mundo, INFJ com muito prazer!



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