O café que ficou para trás

Não me envergonho em contemplar minha face no espelho e ver que breves lágrimas rolam. Outro dia vi seu rosto alegre bailando no teto, nas paredes, no escuro do meu quarto. Com as pálpebras fechadas, eu quase tive certeza da continuidade de sua vida. Contudo, ao abri-las, retornei ao estado kafkiano real e palpável: você não estava mais lá. Era uma quimera em meio ao meu desespero e lágrimas.

A memória dilui-se pouco a pouco, nem consigo recordar quando foi a última vez em que nos falamos. Sua fisionomia se torna um pequeno borrão, não sei mais como é a sua voz. Sei, no entanto, que você jamais chorava, apenas ria. Falava as coisas mais estapafúrdias, nos momentos mais absurdos e isso me irritava. Sempre ríamos também de ti e esse riso não te constrangia, era para ti uma verdadeira diversão. Sua existência era discreta, quase anônima, mas era uma existência tão presente, tão próxima.

Quantas vezes você não me convidou para o café e eu, por charme ou descuido, me deixei ficar, até ver você lentamente desistir de me esperar e pouco a pouco sumir pelos corredores. O arrependimento tem um gosto amargo de café dormido.

Hoje sei que eu deveria ter aproveitado mais a sua companhia, desfrutado até os momentos triviais. Não me dei, exatamente porque as pessoas não se dão.

Hoje sei – independentemente do tempo que passar – sempre me lembrarei de você. Se tudo isso não tivesse acontecido talvez eu não lembrasse, afinal só agora é que me surpreendo pensando em ti. São pensamentos vagarosos e pesados, permanentes.

Você tinha cara de Pessoa, nem posso ouvir falar dos heterônimos. A pedra no meio do seu caminho foi enorme. Jamais esquecerei que essa pedra me privou da sua existência.

Agora os corredores amplos parecem um buraco fundo. O mundo é cinza. O café é requentado. As lágrimas são tão poucas se comparadas ao peito rasgado. Eu não deveria perguntar as razões, mas não consigo reprimir meu inconformismo. Sei que tudo passa, mas o mundo será para sempre um pouco mais cinza e todo café terá seu rosto. De repente me deu até vontade de morrer para saber se comigo as coisas seriam diferentes.

A classe, antes alegre e descontraída, hoje ostenta uma cadeira vazia e a cadeira está sobre um palco. Impossível ignorá-la.

Deveria, enquanto havia tempo, ter olhado mais dentro dos teus olhos, apreciado mais tua camisa azul amarrotada, não ter negado meus abraços, ignorado meus colegas bobos e tomado nosso café com pão-de-queijo quente.

Não deveria tê-lo deixado esperando por tanto tempo.

Hoje o mundo é cinza e os minutos muito longos.

Faz falta a certeza de que você entrará pela porta da sala rindo e falando apressadamente sobre mil coisas, tão apressadamente a ponto de ninguém compreender. Espero que nenhuma mãe precise olhar para um quarto vazio outra vez, que nenhum de nós precise estar em uma classe com uma cadeira vazia e que nenhum de nós precise esperar perder para sentir saudades.

Viver é sempre o agora, nunca o depois.

In memorian

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Rândyna da Cunha
Rândyna da Cunha nasceu em Brasília, Distrito Federal, em 1983. Graduada em Letras e Direito, trabalha como empregada pública e professora. Tem contos publicados em diversas revistas literárias brasileiras, como Philos, Avessa e Subversa. Foi selecionada no IX Concurso Literário de Presidente Prudente. Participou da antologia Folclore Nacional: Contos Regionalistas da Editora Illuminare e das coletâneas literárias Vendetta e Tratado Oculto do Horror, da Andross Editora- http://lattes.cnpq.br/7664662820933367



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