Fragmentos de um olhar apurado

Ela passa por mim e meu olhar acompanha seu andar de graça e equilíbrio. De onde estou, logo atrás dela, sinto o cheiro-xampu de seus cabelos, que brincam felizes e brilhantes sobre as costas parcialmente nuas. Camisetas brancas têm o poder do que é básico. E o que é mais básico do que camisetas brancas? Vamos andando até o ponto de ônibus. Eu então repuxado por fios dourados. Minha cabeça martela ao som de um sino já conhecido. Sono. Sono. Sono. Ela senta, espera e reclama do cheiro forte de amônia da rua. Eu sento, espero e concordo balançando a cabeça. E como em um instante cinematograficamente perfeito, ela pega uma mecha do cabelo e leva ao rosto. Olhando daqui, chego a sentir mais uma vez o cheiro do xampu. Ceramidas, eu diria. Aquele do frasco rosa. Frasco não, que isso é coisa de perfume. Aquele da embalagem rosa. E acabo então por me lembrar do quanto coloridos são os vidros de xampu. E do quanto suas cores me atraem. Alguém já parou pra observar o quanto eles combinam entre si, lado a lado, na prateleira de um grande mercado? Que cores. Que formas. Que cheiros… Mas voltando ao assunto que não deixa de ser este mesmo, uma vez que eu falo sobre nada, o ônibus chegou e eu passei pela roleta tendo ela bem atrás de mim. Tive vontade de perguntar se o cheiro de meu cabelo era melhor que o da rua. Tive vontade de perguntar, mas resolvi escrever. Fui andando sem voltar o rosto até sentar no quarto banco, ao lado da janela. É que gosto de estar na frente caso o ônibus venha a encher, o que sempre acontece. Com o ônibus ainda parado, uma velhinha de lilás entra pela porta da frente e senta ao meu lado. Me pergunta com a simpatia dos velhos felizes se ele vai pra Campo Grande. Vai. Vai sim. Quisera eu que não fosse. Nosso caminho prossegue sem maiores novidades. A paisagem há muito me é conhecida. Tão minha amiga que chego a dividi-la em pedaços para que se torne mais breve. Conheço com detalhes cada uma de suas partes. E eis que no meio da viagem e quase ao fim da crônica, ela passa de costas, com os cabelos ─ sempre os cabelos ─ ainda soltos apesar do vento e com uma pasta na mão. Não tinha visto a pasta, só a bolsa. Grande. Bege. Posta ao lado. Salta e vai andando tranquila com o mesmo andar ritmado. E ela se vai pra sempre, sem saber que ficou presa entre minhas linhas agora embaraçadas e um tanto tortas pelo balanço cansado da viagem. Sem sequer sonhar que o simples cheiro de seu cabelo viria a me inspirar por toda uma tarde.

Crônica do livro As Maravilhas do País de Alice, Scortecci, 2008, de Alice Venturi.

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Alice Venturi
“Burila as palavras com a maestria de quem enxerga as veredas do ser como pontos de passagem, onde tudo é passível de transformação. Os sentimentos se entrelaçam, vão da risada escancarada à mágoa que mancha as horas com um encardido que não sai fácil. As palavras dela não saem fácil da gente, perpetuam-se nos recônditos espaços, proliferam sentidos e criam raízes fundas. A “Palavra” que estilhaça e esfuzia sentidos é a mesma que embala e cura a alma das mazelas cotidianas. Chega para sublinhar a sofisticação do simples, para propor o jogo poético das imagens que se entrelaçam desvelando tudo que vibra e faz vibrar. Fotógrafa, poeta, produtora artística e professora são algumas das nuances dessa carioca de alma furta-cor que vive suscitando diálogos entre os diversos campos artísticos e convocando à emoção, ao delírio ─ ao voo. Formada em História da Arte pela UERJ, Alice tem um livro publicado, “As Maravilhas do País de Alice”, pela Scortecci Editora, 2008”. Ester Chaves

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