Escolhi ser professor para compartilhar a minha luz com o mundo

Poderia ter sido padre. As pessoas iriam chegar para pedir a bênção e contar suas histórias mais íntimas nas confissões. Não faltaria convite para almoçar. Seria recebido com festa na casa de todas as famílias devotas no interior.

Poderia ter seguido os passos do meu pai. Seria mais cômodo assumir o comando das vendas de carros de uma concessionária. Eu não iria me preocupar tanto com o saldo da conta bancária no final do mês. O meu Facebook teria fotos de viagens para os países do mundo inteiro.

Mas, escolhi seguir o meu próprio rumo.

Lembro da época do ensino médio marcada por vários conflitos internos.

“Você já decidiu o curso que irá fazer na faculdade?”

Essa pergunta foi responsável pela aceleração de uma crise de gastrite durante a adolescência. Cresci no meio de uma cultura que valorizava apenas três cursos: Direito, Medicina ou Engenharia. Quando eu tentava sonhar mais alto para imaginar um futuro criativo, as pessoas ao redor podavam os meus sonhos. “Você tem que fazer um curso que vai proporcionar dinheiro”.

E foi nesse contexto da falta de incentivo para seguir outras possibilidades, que tomei a decisão de fazer o Curso de Direito. Muito observador, comecei a analisar as possibilidades de carreiras que eu poderia seguir. “Paquerei” com algumas opções, mas não me identifiquei com uma série de profissões por falta de afinidade. Nos momentos de indecisão, fiz um exercício: fechei os olhos para tentar me imaginar no exercício da função. Resultado: nunca me vi inserido no contexto de um escritório de advocacia, nem como Juiz ou Delegado. E ter noção de tudo isso foi muito difícil, já que convivo em uma sociedade que alimenta uma “cultura de concursos públicos” pautada muitas vezes no discurso da estabilidade financeira.

Nadar contra a maré não é fácil…Entretanto, acredito que cada pessoa nasce com uma vocação e é preciso ter muita coragem e paciência para encontrar um caminho particular. Nunca me imaginei professor. A vontade de seguir esse ofício foi semeada por muitos(as) mestres que mudaram minha forma de encarar o mundo. Ao ser provocado por professoras, tive vontade também de provocar outras pessoas. A frase da professora Erin Gruwell do filme “Escritores da Liberdade” sintetiza o que penso sobre a educação:

“Eu planejava fazer Direito. Entretanto, pensei que quando se defende um garoto no tribunal , já se perdeu a guerra. A verdadeira luta deveria acontecer dentro da sala de aula”

Essa frase me atravessou e despertou em mim a vontade de ser professor. Hoje eu vejo que me torno professor toda vez que entro em sala de aula. Decidi compartilhar a alegria serena no fundo dos olhos dos alunos(as), que agora enxergam um determinado assunto sob uma perspectiva diferente. Não tenho esperança de mudar o mundo, mas se eu conseguir despertar a vontade de reflexão em apenas uma única pessoa, todo o meu esforço já terá valido a pena.

Ontem fui ao banco para pedir uma ampliação do limite do cartão de crédito. Hoje eu olho para minha conta para fazer um cálculo de quanto vou poder gastar no almoço do domingo. Hoje sinto no bolso como é lidar com uma profissão que não recebe uma valorização coerente com o ritmo acelerado de trabalho.

Apesar de tudo, eu gosto da emoção de estar em sala de aula para ser o que eu sou: humano. Antes de ser professor, é preciso ser humano para conquistar a liberdade de entrar pouco a pouco na vida de tantas pessoas e ser condutor de palavras que podem dar sentido para suas caminhadas. Me sinto diferente do padrão dentro da minha área de atuação, mas, sinto que estou cumprindo uma missão, que é justamente iluminar pessoas nos espaços que mais necessitam de um olhar humanizado.

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Thiago Hanney
Escritor, Professor e Storyteller. Compartilho histórias guardadas nas gavetas do meu armário.



2 COMENTÁRIOS

  1. Thiago, amei o texto!!!
    Deu vontade de compartilhar com todos os amigos professores e pedir pros que implicaram com a minha escolha, perceber o que me fascina nessa carreira tão mágica!!!

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