Danem-se os amores calmos

Dia desses, rolando a timeline, encontrei um trecho de uma entrevista com o escritor Pedro Juan Gutiérrez. São cerca de trinta segundos e o doce alívio de não me sentir mais um louco quando falo em intensidade. No trecho o condutor da entrevista cita um poema de um poeta argentino: “Amor que serena, termina?”. Gutiérrez responde convicto: Sim! Ele complementa: “Tenho sessenta e cinco anos e nunca tive um amor tranquilo, equânime”.

Ah, Gutiérrez! Há de ter salvo uma alma. Nós que amamos de maneira louca, desesperada e alucinada, nos perdemos em meio à superficialidade de sentimentos rasos e de entregas vazias aos amores sem promessas. Cheguei a julgar um dia que o amor maduro era racional, era leve, terno. Descobri irrefutavelmente que não é. Desandei na mornidão de camas tediosas, de companhias breves. Nada que é morno me basta. Quero amores e cafés quentes, puros e fortes. Me orgulho até aqui de nunca ter tido um amor calmo, sereno. Não é sorte um amor tranquilo, a tranquilidade é concomitante ao fim.

Quero chegar a plenitude da vida com a certeza de que continuei amando desesperadamente. A plenitude e a maturidade estão, por sua vez, em entender que não é a eternidade que basta, é a alternância do amor, das paixões e das entregas que torna tudo mais intenso. A beleza está no fim, uma flor natural é muito mais bonita porque ela passa, seca, seu cheiro e esplendor sucumbem, a flor artificial é feia porque é permanente, fria. O orgasmo é um estágio de felicidade porque é passageiro. Quanto mais efêmero mais importante, a eternidade é por si só um saco, nunca vi vampiros felizes.

A calmaria é monótona. Prefiro quebra-cabeças e desafios. Prefiro histórias curtas, intensas o suficiente para serem inesquecíveis. Ando querendo escrever na parede do meu quarto a palavra RECIPROCIDADE, tatuar na pele, é isso que vale, andar juntos. Por isso prefiro os amores impossíveis, que reclamam a luta, que querem tesão, que te cobram se arranjar em meio ao desarranjo da imaturidade. Por isso prefiro a loucura de quem se joga no ineditismo confiando naquilo que o coração sente.

Amor requer calor, motivação, flores sem esperar, lingeries novas de surpresa. Amor requer jovialidade mesmo que idade chegue. Carece beijos no meio da cozinha, da sala, da rua e no elevador, na chuva e não está pra quem tem medo de se molhar. Amor pede, amor ordena renascimento. Amor arrepia, transpira. Amor tem sede do inacreditável, do inusitado. Amor se reproduz.

Mesmo quando você não acerta o passo, tem alguém para acompanhar sua dança. Amor deve ser um bolero contínuo em uma tempestade. O amor sereno é uma torneira escassa de água que tão logo secará. Uma torneira sem água é inútil em seu propósito. Se encontrar uma torneira sem água, não pense duas vezes, vá embora, mate sua sede em outro lugar, onde o amor transborda.

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Giovane Galvan
Giovane Galvan é taurino, apaixonado e constantemente acompanhado pela saudade. Jornalista, designer, produtor e redator, escreve por paixão. Detesta futebol e cozinha muito bem. Suas observações cotidianas são dramáticas e carregadas de poesia. Gosta do nascer e do pôr do sol, da noite, mesas de bar e do cheiro das mulheres pra quem geralmente escreve. Viciado em arrancar sorrisos, prefere explicar a vida através de uma ótica metafórica aliando os tropeços diários a ensinamentos empíricos com a mesma verdade que vivencia. Intenso, sarcástico e desengonçado, diz que tem alma de artista. Acredita que bons escritos assim como a boa comida, servem de abraço, de viagem pelo tempo e de acalento em qualquer circunstância.



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