As coisas que eu precisei aprender com o luto

No dia em que você nos deixou, como em um cliché de filme, serenava. Porém, naquele dia, eu ainda não entendia que era o dia em que você me deixou. Serenava no tempo e, aos poucos, serenava também no meu coração. As pessoas iam saindo lentamente, em silêncio, enquanto eu me deixava ficar, esperando que em uma reviravolta louca você se levantasse dizendo que era uma brincadeira de mau gosto. Sim, é absurdo, mas eu aprendi que no luto o absurdo é o comum de quem ama. Depois que todos se foram, ela veio juntamente com o silêncio e o frio: a dor pungente. Eu demorei a aceitar, mas a dor do luto é física. Ela rasga de dentro para fora, ela fere pelas entranhas, como se ela sempre tivesse estado ali e estivesse apenas esperando o momento certo para sair rasgando tudo, como um alien cuidadosamente alojado.

Nada que eu vivi até o momento daquela dor poderia se comparar àquele sofrimento, nada. Nem sei dizer se aquilo era sofrimento, eu acho até que aquilo ali nem nome tem. É um carrossel louco de sentimentos tão fortes que deixam a alma e o corpo abatidos de cansaço. Quando após três dias sem dormir, o corpo finalmente repousou numa cama, era como se eu tivesse travado uma luta numa arena romana. Dormimos sem querer dormir. Simplesmente, o corpo se desliga, porque sabe que se não fizer isso não suportará. Eu aprendi que o nosso corpo nos comanda no momento do luto.

Vivendo o luto, eu precisei aprender algumas coisas. Não porque eu quisesse, mas porque foi necessário, foi parte do processo natural de adaptação. Do luto mesmo eu não queria a menor aproximação e o mínimo sinal de conhecimento, porém, eu não pude escolher. A dona morte é uma ladra muito furtiva e ela roubou ao ponto de me deixar vazia.

De tudo que restou em mim, a coisa que mais se sobressaiu foi a dor. É verdade, o luto dói de tantas maneiras que eu não poderia jamais imaginar e que talvez eu jamais saiba descrever. O luto doeu psicologicamente, fisicamente e espiritualmente. Eu me sentia vazia e solitária, em todos estes aspectos. Então, eu aprendi que às vezes a gente deseja morrer, tão involuntariamente, que chega a ser inocente. É apenas o desespero para aliviar a dor gritando mais alto dentro de nós. E eu notei que vai ter muita gente solidária ao nosso sofrimento, mas também vai existir uma quantidade surpreendente de pessoas de alma dura, que insistirão em julgar nosso sofrimento e tentar nos roubar o direito de viver o luto. Sim, o luto precisa ser vivido. Afinal, ele é também uma etapa da vida: nascemos, vivemos e morremos. Neste espaço do “vivemos”, enterramos quem amamos. Estar de luto significa que você está vivo.

Chega um tempo em que lutamos insistentemente por melhorar, queremos sair daquele poço fundo e parar de sofrer, algo dentro de nós teima em reagir. E, neste momento, fazemos de tudo, topamos qualquer parada. É a hora que os mais aventureiros fazem besteira, entram em alguma fria. A realidade é que tudo não é mais que uma busca incessante por uma forma de arrancar do peito a dor sufocante da ausência de quem amamos. Na ânsia de esquecer muitos de nós cometem as piores burrices de suas vidas. É preciso ter calma nestes momentos. É preciso ter constância. É imperativo buscar a paz.

Eu aprendi também que nem sempre os médicos estão certos e que para a psiquiatria o luto tem tempo. Como categorizou o psiquiatra: “Luto é por três meses, quando passa disso é depressão. Você está em luto há cinco meses, portanto, está em depressão.”. Saí do consultório com um misto de ressentimento e revolta, amassando uma receita de tarja preta nas mãos. Se enterrei alguém que amei por 15 anos, como eu poderia simplesmente esquecê-lo em três meses? Jamais imaginei que o luto devesse ter data marcada para terminar. Para mim luto é enquanto a pessoa me fizer falta e, neste caso, é para sempre. Se existe um alívio melhor que chorar e deixar as lágrimas apenas escorrerem em silêncio, eu ainda não descobri qual é. Mas tenho certeza que, ao menos para mim, dopar meus sentimentos com medicamentos e fingir não sentir nada jamais solucionará meus problemas. Quando alguém disser: “Não chore!”. Teime e chore sim. O choro é necessário, a tristeza é saudável.

Aprendi também que as realizações pessoais a serem comemoradas se tornam alegrias com uma pontinha de tristeza e é preciso coragem para enfrentar isso. É preciso coragem para comemorar cada coisa que você desejou festejar ao lado daquela pessoa que não está mais ali, é preciso força para continuar e é preciso audácia para dar valor à sua própria vida e às suas conquistas, quando a pessoa com quem você sonhou em dividir não está mais ali. A vida após um luto consiste em um exercício diário.

Dia após dia, as nossas reações se modificam, nossos sentimentos se acalmam. O desejo de convulsionar em lágrimas dá lugar a uma saudade comprida e cheia de amor, recheada de lembranças que chegam de repente, no meio da tarde e nos arrancam um sorriso meio bobo. A passagem daquela pessoa em nossa vida passa a fazer todo o sentido. É trivial, mas era como tinha de ser. Se não fosse assim, não seria minha história ou a sua ou a dele.

Aos poucos entendemos que a vida não para em prol do nosso sofrimento, o mundo não deixa de girar para sofrermos, tudo permanece como está e segue o fluxo normal. Então, gradativamente conseguimos nos adaptar. Voltamos a viver. Eu aprendi que existe vida após o luto. E uma vida mais consciente de que o tempo é curto, que o verdadeiro amor é raro, que Deus existe, que amar exige compaixão, que as pessoas mais importantes de nossas vidas sempre estiveram ao nosso lado, que o destino nos leva a cumprir nossa jornada e que vale à pena esperar. Mas a maior de todas as coisas que eu aprendi é que se mil vidas eu tivesse, mil vidas eu aceitaria enfrentar essa dor, apenas pelo prazer de todo o antes que vivi ao lado dele. Se ter a história que eu tive, exigia carregar esta dor, eu a carregaria mil vezes sem a menor dúvida. Com o luto eu aprendi a jamais me arrepender de amar.

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Rândyna da Cunha
Rândyna da Cunha nasceu em Brasília, Distrito Federal, em 1983. Graduada em Letras e Direito, trabalha como empregada pública e professora. Tem contos publicados em diversas revistas literárias brasileiras, como Philos, Avessa e Subversa. Foi selecionada no IX Concurso Literário de Presidente Prudente. Participou da antologia Folclore Nacional: Contos Regionalistas da Editora Illuminare e das coletâneas literárias Vendetta e Tratado Oculto do Horror, da Andross Editora- http://lattes.cnpq.br/7664662820933367



22 COMENTÁRIOS

  1. eu vivi isso há seis anos atrás, e ainda vivo, quando ele me deixou, o que mais doí é não ter me despedido de ter dado um último beijo, um último fique com Deus. Você escreveu tudo o que eu senti quando meu amor se foi é desesperador, a gente fica vazia.

  2. Muito reflexivo e bonito o seu texto Randyna! Perdi tragicamente meu irmão primogênito há um ano e ainda dói muito. Mas Deus nos consola e aprendemos a aceitar essa ausência. Meus sentimentos pela sua perda! Que Deus te console! Beijos

  3. Estou passando por essa dor do luto… ha um mes e meio perdi minha bebezinha, e é como vc disse… se eu tivesse que carregar essa dor , mil vezes eu carregaria só pra poder viver essa historia… eu e minha doce Lais!!!

    • Eu nem sei o que dizer… A sua dor é dessas que deixa mudo… Só posso imaginar que com as asinhas de anjo dela, a Laís deve olhar para a mãezinha dela do céu e pensar o quão abençoada ela foi por ter tido uma mãe tão amorosa. Não deixe essa dor te abafar. Resista. Somos mais fortes que imaginamos. Força, fé! Um forte abraço. Deus te abençoe.

  4. Eu nem sei o que dizer… A sua dor é dessas que deixa mudo… Só posso imaginar que com as asinhas de anjo dela, a Laís deve olhar para a mãezinha dela do céu e pensar o quão abençoada ela foi por ter tido uma mãe tão amorosa. Não deixe essa dor te abafar. Resista. Somos mais fortes que imaginamos. Força, fé! Um forte abraço. Deus te abençoe.

  5. Estou vivendo um momento de luto onde nada para mim faz sentido.Nao tenho motivação para ir ao trabalho, cada sorriso me dói como se estivesse sendo apunhalada.Ja se foram 3 anos e meio da perda do meu único filho de 7 anos… Vc escreveu tudo o que sinto neste período…

  6. Parabens , dificilmente alguem terra tanta sensibilidade, sentiments Tao prof undos e resist comovoce o teve…E tudo isso com uma simplicidade e um estilo invejavel ! Digoxin isso com a Autoridade de quase oitenta anos de vida dentro da dor recente de um amor de Mai’s de cincoenta anos de historia. O que me traz alivio e lembrar o que appendix nessa caminhada: SAUDADES E O AMOR QUE NÃO MORRE….

    • Quisera eu ter vivido tão longo amor… Como já dizia Camões, “Para tão longo amor, tão curta a vida…”. O amor não morre e eu, no meu íntimo e em todas as minhas convicções pessoais, creio no reencontro. Sei que no momento oportuno vou reencontrar meu amor que partiu. Meus parabéns pela extensa jornada, imagino como deve ter sido bela. Um forte abraço. Muita luz e paz.

  7. Testo lindo! A minha amada mãe faleceu há pouco mais de 5 meses. E a descrição da dor é esta mesmo. O choro vem sem aviso e em qual lugar. A dor é constante. Meu remédio hoje é a oração, que hoje está mais calma, mais ja foi mais urgente. Fiquei emocionada!

  8. Todos meus sentimentos refletidos nesse texto..uma dor rasante. …tristeza infindáveis. APÓS 21 anos de companheirismo cumplicidade e amor. ..de repente ter que se despedir sem despedidas sem um último adeus. É a maior expressão de dor e perca…luto sem fim. . E como dito no texto: o que me sustenta é a fé inabalável que o reencontrarei na eternidade

  9. Estou vivendo o luto está dificil meu filho faleceu está com um mês estava com 28 anos e pra mim ele está trabalhando Deus está me dando muita força para passar por tudo isso hoje é a missa de um mês e doi demais sua ausência

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