Aquele sábio senhorzinho

Estava eu sentada no banco da rodoviária outro dia aguardando um ônibus para passar o final de semana com uma prima no interior. Resolvi ir de ônibus ao invés de carro, pois andava com a cabeça meio zonza de problemas que queria aproveitar as 4 longas horas de viagem para pôr a mente em ordem.

Eram tantas coisas que povoavam meu pensamento nos últimos meses: problemas de ordem financeira, profissional, mas sem dúvida o que mais me incomodava eram as inquietações do meu coração.

Foi quando avistei um senhorzinho vindo em minha direção. Cabelo branquinho, um pouco de barba, camisa clara e calças compridas, arrastava uma minúscula mala. Ele transparecia uma serenidade no olhar, fiquei meio hipnotizada e quando percebi já estava sentando ao meu lado.

“Bom dia menina!”, disse ele. A calma e a tranquilidade não vinham somente da aparência, mas também da voz.

“Bom dia”, respondi.

“Percebo a senhorita com uma carinha de preocupação… Ou seria tristeza?”

Nossa! Como aquele homem poderia me conhecer se tinha sequer já me visto? Eu se me olhasse no espelho diria que estava com cara de sono.
“Sim, algumas. Mas todo mundo traz algumas inquietações no coração, não?”, já me explicando.

“Sabe menina, às vezes nossos problemas são bem menores do que os enxergamos. Temos a mania de dificultarmos aquilo que muitas vezes nem difícil é. Quando está difícil encontrar a saída, experimente levantar e olhar o problema sob outro ângulo. E muitas vezes a solução está dentro da gente mesmo.”

Arrepiei. Na hora. Senti uma empatia imediata por aquele senhorzinho, não sabia nem explicar. Estava há dias pensando em como tratar meu coração, como fazer com que as dores já sentidas evaporassem, como tirar aquela mágoa de dentro do peito, como ser feliz no amor de novo… Meu maior desejo era amar e ser amada novamente, sem medo, ter um coração leve, calmo, sereno.

Só de ouvir aquele senhor parece que já senti na hora um alento. Parecia tão fácil!

“Sabe senhor – comecei novamente a me explicar – às vezes parece tudo tão complicado. Sabe quando você não quer pensar, mas continua pensando? E pior: não consegue se desprender de tudo que passou, como se aquilo que viveu ficasse eternizado e te impedisse de seguir em frente?”.

“Sei, entendo. Mas às vezes menina, é preciso largar de mão. Deixar o vento levar. Carregar somente o que foi bom, o que agrega, o que a gente vai poder utilizar. Olha a minha mala: porque eu levaria uma do tamanho da sua se eu sei que em dois dias vou precisar somente da metade? Desapegue-se!” – falou abrindo um sorrisinho.

Eu olhava perplexa. Como um homem que eu nem conhecia estava me dando uma lição de vida em menos de 10 minutos?

Então ele levantou e disse: venha aqui. Havia um aglomerado de folhas do vendaval do dia anterior. Ele começou a retirar as folhas com os pés e percebi que o piso (que até então estava coberto de folhas e não era possível de ser visto) era colorido e muito bonito.

“Está vendo? Cada folha que retiro aparece uma nova pedrinha colorida. Vês como esta calçada é feita de mosaicos? O Sol reflete e brilha no que até ontem estava coberto por poeira.”

Nisso o ônibus dele encostou. Rapidamente ele puxou a mala e disse “Tchau menina. Cuide-se!” e seguiu andando. Sussurrei um tchau e segundos depois de ele já ter dado as costas, lembrei que não tinha sequer perguntado seu nome e agradecido.

“Senhor!”, gritei.

Ele olhou pra trás e eu disse “Obrigada! Qual o seu nome?”

Ele respondeu “Meu nome é tempo”.

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Raquel Lopes
Gaúcha, engenheira de alimentos por profissão, escritora nas horas vagas. Capricorniana que ao contrário do que diz a astrologia, não tem um coração gelado, mas sim feito de manteiga. Apaixonada por cervejas artesanais, viajar, cozinhar e ir para a academia. Em matéria de amor já faltei aula, já fiquei em recuperação, já repeti o ano e também já fui aprovada com louvor. Acredito que o amor é o que move o mundo e através dele é que a gente evolui. Posso ter quebrado a cara algumas vezes, mas em todas elas eu me refiz. Uma definição de mim mesma? Fui e continuarei sendo uma romântica incurável.



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