Trevo

Sentimentos são a moldabilidade que temos de nos adaptar diferentemente a cada pessoa e situação que enfrentamos nessa vida. Tem gente que desperta uma sensação nostálgica de querer viver de novo tudo que já se viveu, mas ao mesmo tempo de um jeito tão diferente no agora… existem lampejos de intimidade que surgem no meio de conversas aleatórias comunais quando, por exemplo, a pessoa vira e diz “eu já tinha visto essa sua blusa?”, mostrando não só interesse mas ainda o sentimento de participação quase-que-contínua na vida de alguém. Cada pedaço do outro é uma nova sensação que a gente nunca-já sentiu, e parece que quando a gente tá com certos alguéns se abre uma cratera no manto espaço-tempo e tudo que antes era palavra vira então cores, suspiros e sensações que nunca-jamais ser humano algum vai conseguir transformar em palavras. E quando a gente tenta, só perde textura, então o melhor é ficar em silêncio mesmo. Felizes são as paredes, que veem frias tudo se desenrolar ironicamente e sabem bem que atração não é (só) físico, é alguma coisa que ficaria legal te preenchendo ou até mesmo um certo jeito de pensar que, por algum motivo, achamos interessante porque nos reconhecemos um pouco ali na própria existência do Outro.

Visitar a casa de alguém, por exemplo, é adentrar profundo nos seus sonhos e memórias. As paredes são sempre recheadas de lembranças mesmo quando são só brancas. É preciso saber ficar bem quieta, calma, observando a outra pessoa ali existindo em seu próprio habitat natural. Tem gente que mesmo sem saber acaba nos estimulando a ser mais nós mesmos, nos preenchem de ar pra gente conseguir sair flutuando pra onde quiser ir e, nesses momentos em que alguém nos (pre)enche, é preciso saber dançar no silêncio e pegar com as mãos os cheiros diluídos no ar. Latas vazias de cerveja, quadros vindos de lugares distantes e um certo extra-terrismo que nos pede pra observar fotos em paredes e sorrir leve com o gosto de quem não viveu nada daquilo mas fica feliz por compartilhar o saber de que isso já aconteceu um dia, nalgum lugar, com algumas pessoas, num de infinitos pontos que somos nesse mundão universal. E quando eu falo de universo, não me refiro ao Uni (Verso) que é música de vários versos, não. Falo é do Dentro da gente, porque cada pessoa é um universo a vaguear em espaçonaves próprias de pele e osso. Quando a gente acha que só existe uma única singularidade, um único embate planeta-estrelas, percebe então que quase tudo pode ser ou vir a ser. Com o cuidado direito tudo pode ser amor igual, só precisa saber aguar e pôr no sol as coisas de dentro do peito direitinho pra não mofar. E tem dia também que tem que saber dar um tempo pra tempestade interna conseguir chover – porque, sem arte, a gente se desfarte no meio da loucura de toda uma multidão de normalidade. Tem quem chame isso de sorte. Eu só chamo de respiro mesmo.

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Thaís Amaral
Thaís Amaral tem 22, mora no interior de SP e publica os murmúrios de seu mar de dentro no blog Sereia no Aquário (sereianoaquario.wordpress.com).



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