Te odeio, te odeio

Ela era estabanada. Andava com os pés para dentro pelos corredores da faculdade gritando quando ficava brava: “Te odeio, te odeio!”

Claro, era um xingamento doce! Porque o odiar dela sempre vinha seguido de uma risada gostosa, não acreditando no que ela mesma tinha acabado de fazer na aula prática de prótese: colocara fogo no próprio cabelo enquanto fazia um enceramento progressivo usando a famosa lamparina a álcool!

Mas vivia cercada por notas nove, nove e meio e dez! Entrava mais cedo de férias porque nunca pegava uma prova final. Era dona do caderno oficial onde tirávamos xerox para estudarmos (ahhh, quem não se lembra daquela letra redondinha?). E queria sempre comemorar…

Lembro-me de uma festa no primeiro ano de faculdade onde emprestamos de outro amigo um toca fitas porque não tínhamos um som decente. Junto veio uma fita cassete dentro e já na primeira faixa, tocou “WISH YOU WERE HERE”, do Pink Floyd! Eu não sabia, mas era a música preferida dela. De tanto ouvir e rebobinar a fita até o começo, quebramos o som do nosso amigo, e não é preciso dizer que ele não gostou nem um pouco!

Ela era a Fabíola. Ou Fabíola Simões de Brito, que logo depois se casou com o Luiz e adicionou o Lopes ao sobrenome. Mas hoje todos a conhecem por Fabíola Simões, a autora do blog “A Soma de Todos Os Afetos”, cuja escrita se tornou marca nas redes sociais, com seus milhões de seguidores no Facebook.

Semanas atrás, fomos tomar um café em Campinas, interior de São Paulo, e eu disse: “Fabs, me sinto como se estivesse encontrando o Bono, do U2”

Dos seus inúmeros textos, esse é meu predileto. A menina estabanada com os pés para dentro se tornou uma mulher sábia, que na simplicidade das coisas consegue revelar o óbvio mas que sempre insistimos em não levar em conta.

Pra você Fabíola, um “te odeio, te odeio” bem doce.

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Djalma Alt Faria Neto
Djalma, DJ, Djas, Djalminha, Jajá - pode me chamar do que você quiser. Ortodontista que usa All Star, posso viver sem muitas coisas - mas por favor, não me peça pra viver sem música. Hoje em dia mais praia que montanha, mais Pearl Jam que U2, mais Dave Grohl que Kurt Cobain, mais chuva que sol, mais corrida que caminhada, mais sorvete que brigadeiro, mais natação que spinning, mais Instagram que Twitter e muito, mas muito mais cabernet que internet.



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