Sobre as guinadas que a vida dá

Sou dessas pessoas que adora as guinadas que a vida dá e não me refiro apenas às minhas reviravoltas não. Basta eu observar um conhecido qualquer dando uma volta por cima, com cara de “olé”, que eu já fico cheia de vaidade alheia e comemorando em silêncio. Nasce um sorrisinho de canto teimoso, no meu rosto e eu fico pensando: “Que coisa boa!”.

É muito fácil as pessoas desmerecerem os outros, torcerem insistentemente pela decadência do próximo. Orando, em silêncio, pelo total desabamento da vida de outras pessoas. Acredite. Há pessoas que oram neste propósito. Então, a vítima de uma infinidade de maus pensamentos, inveja e carga negativa tomba. É óbvio que isto aconteceria, afinal, os pensamentos possuem poder de intervenção. Alguns pensamentos, unidos à sua carga emocional, são tão fortes que podem até mesmo adoecer alguém. Não duvide disso e nem queira testar. Ou sua avó nunca te contou a velha história do pé de pimenta que murcha quando um invejoso entra em casa?

Aquele que tombou passa algum tempo no chão, sendo observado por aqueles que torceram pela sua queda, sendo o alvo perfeito de gozações. Algumas pessoas sentem um estranho prazer em deleitar-se com os fracassos dos outros e acho que isso diz muito sobre elas mesmas. Afinal, quem gosta de ver o outro fracassar, deve ter muito medo de conviver com vencedores. A questão é que quem caiu já não pode mais se dar ao luxo de se preocupar com essa contemplação sádica, ele precisa de alguma forma se reerguer, se refazer e recompor. Observe que ele está caído, então a sua própria posição não lhe permite ver a reação que os outros têm pela sua condição. Naquele momento em que está caído, olhando para o chão e tentando tirar a poeira que adentrou seus olhos, ele está refletindo sobre todas as hipóteses que tem. Certamente, no início da queda ele já se questionava se deveria firmar as pernas e tentar se manter de pé, ou, simplesmente, se deixar despencar no chão. Agora, já caído, ele reflete sobre o que fazer. Mil pensamentos passeiam pela sua mente e vários sentimentos lhe surgem no coração. É impossível não se sentir triste e não se perguntar, muitas e muitas vezes, por quê? Por que comigo? E ele pensa em como se levantar, procura ao redor um pedaço de madeira que possa usar como apoio.

Ele começa a deixar de ser aquele de antes da queda. Aos poucos ele vai percebendo qual foi a pedra em que tropeçou, qual foi o passo em falso que deu, qual foi a palavra maldita à qual deu ouvidos. Conforme, ele tenta se reerguer, sua essência vai se transformando. O velho eu, aquele que caiu, sabe? Que se deixou ser envergonhado e enfiou a cara no chão para todo mundo ver e rir, que fraquejou e fez todos pensarem que jamais seria capaz de realizações outra vez. Aquele velho eu começa, então, a morrer. Contudo, as pessoas ao redor estão muito ocupadas caçoando e não observaram, que, como a fênix, o nosso personagem encontrou uma forma de fazer da sua desgraça o seu triunfo. Seu corpo, ferido e encurvado, vai criando nova forma, cicatrizando, tornando-se forte. Seu psicológico, que antes era frágil, agora entendeu que as quedas existem e nem são tão ruins assim, afinal, ele saiu vivo. Finalmente, ele pôde compreender que cair o deixou mais forte, pois agora se cair mais outras mil vezes, se levantará duas mil. Ele aprendeu como se levantar sozinho.

De repente, num movimento inesperado, ele se põe de pé, ereto e altivo, parecendo até mais alto, com o queixo levantado, olhos firmes, um sorriso confiante no rosto. As pessoas assombradas não acreditam no que veem. Não é a mesma pessoa! Ficam todos pasmos e os queixos caem. Está mais bonito e muito forte. Ele apenas ri. Ele poderia gastar o tempo dele respondendo a todas as ofensas e retrucando, mas a melhor vingança é viver bem, por isso, ele dá de ombros e segue seu caminho, sendo muito melhor que era antes da bela queda e sabendo, que cair é para os fortes, pois não há fraco que se levante de uma queda. E todos aqueles que pararam para atacá-lo, simplesmente, perderam seu precioso tempo, enquanto ele usava este tempo para crescer, tornar-se melhor e mais forte. Então, a lenda da fênix mostra sua razão de ser e porque ela não é em si uma ficção, contudo, ela é uma representação da capacidade que algumas pessoas têm de fazer da queda uma oportunidade real de renascimento, destruindo mesmo o eu anterior e se reinventando, se tornando melhor e, de certo modo, se vingando dos seus desafetos. Algumas pessoas possuem sim a alma de fênix e aproveitam as desventuras que lhes acontecem para matar tudo que já deveria ter morrido mesmo e recomeçar.

É por isso que eu amo as guinadas que a vida dá! Tanta gente que disse que o fulano não conseguiria, que o fulano não chegaria a lugar algum e olha ali o fulano dando show, sendo feliz e, principalmente, não estando nem aí para ninguém.

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Rândyna da Cunha
Rândyna da Cunha nasceu em Brasília, Distrito Federal, em 1983. Graduada em Letras e Direito, trabalha como empregada pública e professora. Tem contos publicados em diversas revistas literárias brasileiras, como Philos, Avessa e Subversa. Foi selecionada no IX Concurso Literário de Presidente Prudente. Participou da antologia Folclore Nacional: Contos Regionalistas da Editora Illuminare e das coletâneas literárias Vendetta e Tratado Oculto do Horror, da Andross Editora- http://lattes.cnpq.br/7664662820933367



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