Pra quem odeia saudade

Todo mundo diz que brasileiro é que sabe curtir a vida. Com toda ginga e cidade maravilhosa do Rio. Com todo batuque e sensualidade da Bahia. Papo furado. Brasileiro é o único a sofrer com a maldita palavra chamada saudade. Maldita. Renegada. Amaldiçoada. Saudade que nem gosto de dizer porque já começam as contrações de saudade. Saudade de quem está longe. Saudade da época do colégio. Saudade de fazer bolo de amendoim e comprar pão doce na padaria para esperar os amigos que moravam perto. Saudade de um beijo. De um carinho mais despudorado. Saudade daquele olhar que parecia não haver mais nada do lado. Saudade de ter dinheiro. Saudade de comprar Delicado. Saudade de me sentir completamente sua. Saudade. Saudade de namorar no carro. Saudade de acordar cedinho e sair pra passear num dia lindo e ensolarado. Saudade daquele céu azul que eu só via com você do lado. Saudade de me sentir de novo revigorado. Saudade de um tempo sem tantos vazios, sem tantas emoções ocas. Saudade de tantas coisas. Saudade de você aqui. Saudade que é um sentimento que não tem hora e nem paradeiro para se deixar de sentir. Ainda mais pra mim que não acredito no amor, saudade é o único sentimento que me restou para explicar aquilo que é eterno. Porque a saudade não termina nunca. Bem que é um mal durável. Um puxão de cabelo que te deram ainda menina e que dói até hoje, pois o implicante era o menino que você queria como namorado. Saudade que amargura. Saudade que é como machucado. Saudade que dilacera. Que deixa tudo exposto pra só depois vir cicatrizando. Ainda que um pedaço seu tenha ficado de fora. Saudade do sossego. Saudade da companhia. Saudade de saber que sozinho eu jamais ficaria. Saudade da certeza. Saudade até mesmo da mesmice. Saudade daquele poder que tinha Alice de ser ao mesmo tempo estranha e encantadora. Conto de fadas que sempre atordoa independente da versão que se apresenta. Hoje eu sinto saudade de cada pedaço meu que ficou pela pista e que já não me pertence mais. Você, a minha saudade mais dolorida. A miopia que hoje embaça a minha vista. Vem ser meu óculos. Vem me curar dessa palavra que me assombra faz tempo, aumentando meu grau e diminuindo minha visão. Seja a minha solução ainda que adormecida. Vem ser meu final feliz. Me mostra que nem toda saudade é tão dolorida quanto se diz.

Crônica do livro As Maravilhas do País de Alice, Scortecci, 2008, de Alice Venturi.

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Alice Venturi
“Burila as palavras com a maestria de quem enxerga as veredas do ser como pontos de passagem, onde tudo é passível de transformação. Os sentimentos se entrelaçam, vão da risada escancarada à mágoa que mancha as horas com um encardido que não sai fácil. As palavras dela não saem fácil da gente, perpetuam-se nos recônditos espaços, proliferam sentidos e criam raízes fundas. A “Palavra” que estilhaça e esfuzia sentidos é a mesma que embala e cura a alma das mazelas cotidianas. Chega para sublinhar a sofisticação do simples, para propor o jogo poético das imagens que se entrelaçam desvelando tudo que vibra e faz vibrar. Fotógrafa, poeta, produtora artística e professora são algumas das nuances dessa carioca de alma furta-cor que vive suscitando diálogos entre os diversos campos artísticos e convocando à emoção, ao delírio ─ ao voo. Formada em História da Arte pela UERJ, Alice tem um livro publicado, “As Maravilhas do País de Alice”, pela Scortecci Editora, 2008”. Ester Chaves



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