Perfume

“Você não sai da minha cabeça e minha mente voa.
Você não sai”.

(Cidade Negra)

Não sai. Não liga. Não some de vez. Você não sabe o que quer. Não sabe se me quer. Não sabe se vem. Não sabe se pode chegar. Não sabe se quer. Você acaba por não saber o principal. Você fica apenas por fora sondando uma amizade eterna que nunca vai sair do papel. Do rascunho. Do esboço. Eu quero é arte final. Quero projeto feito com nanquim pronto pra construção. Sem erro. Sem risco. Sem mancha. Quero o teu desejo que não se manca e que também não sabe o que quer. Uma hora quer riso. Outra hora quer drama. Depois muda de ideia e quer me levar pra cama como quem acorda antes da hora certa de sair. Você então quer voltar pro sono. Pra facilidade compreensiva e calada do travesseiro que sempre soube te entender melhor que qualquer um. Você tem medo. Você tem sombra. Você não tem a claridade que eu preciso para minha leitura. Você é estranha aos meus hábitos de mesura. De delicadeza. Você é frágil como uma britadeira querendo espaço na solidez da parede escura. Você não combina. E nem destoa. Você é o meio termo que desbanca a minha verdade certeira. Você me faz sentir ora metade, ora inteira, me desfazendo por todo o canto. Me descobrindo debaixo do pano olhando nos olhos dentro da noite prateada. Você é o beijo que eu quis esquecer depois de muitas noites acordada. O calafrio que não avisa quando chega. Mas que me percorre por todo o corpo. Você que na minha lista é o topo e o nada. Você que passa o tempo e ainda continua sem saber de nada me desesperando como que por encanto. Você é o meu sorriso. Meu orgulho. Meu descanso. Meu caso de descaso mal resolvido e complicado. Meu pranto contido e esquecido em alguma poltrona de teatro. Em alguma cama de hotel. De palacete. Você é o cheiro de perfume irresistível que eu hoje tive que tirar com sabonete.

(. .)

Crônica do livro As Maravilhas do País de Alice, Scortecci, 2008, de Alice Venturi.

Abaixo, vídeo criado pela atriz Raphaella Cotrim a partir do texto “Perfume”.

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Alice Venturi
“Burila as palavras com a maestria de quem enxerga as veredas do ser como pontos de passagem, onde tudo é passível de transformação. Os sentimentos se entrelaçam, vão da risada escancarada à mágoa que mancha as horas com um encardido que não sai fácil. As palavras dela não saem fácil da gente, perpetuam-se nos recônditos espaços, proliferam sentidos e criam raízes fundas. A “Palavra” que estilhaça e esfuzia sentidos é a mesma que embala e cura a alma das mazelas cotidianas. Chega para sublinhar a sofisticação do simples, para propor o jogo poético das imagens que se entrelaçam desvelando tudo que vibra e faz vibrar. Fotógrafa, poeta, produtora artística e professora são algumas das nuances dessa carioca de alma furta-cor que vive suscitando diálogos entre os diversos campos artísticos e convocando à emoção, ao delírio ─ ao voo. Formada em História da Arte pela UERJ, Alice tem um livro publicado, “As Maravilhas do País de Alice”, pela Scortecci Editora, 2008”. Ester Chaves



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