Orgulho: uma palavra que me persegue

Ultimamente, me sinto “perseguido“ pela palavra orgulho. Tem gente que me cobra o orgulho de ser brasileiro, ontem escutei uma mulher dizendo que sente orgulho de ser negra, já outra pessoa falava de seu orgulho de ser descendente de alemães. Normalmente eu tenho um bom relacionamento com as palavras, mas meu relacionamento com a palavra orgulho é meio conturbada. Não confio nessa palavra, pelo menos não na forma como ela é comumente usada ou até mesmo violentada por quem a usa.

Bom, o significado de orgulho pode ser:

“sentimento de prazer, de grande satisfação sobre algo que é visto como alto, honrável, creditável de valor e honra”

Mas também:

“sentimento egoísta, admiração pelo próprio mérito, excesso de amor-próprio; arrogância, soberba, imodéstia”

Tenho a impressão de que misturamos as duas definições, além de confundir a palavra orgulho com outros termos.

Como pode alguém sentir orgulho do país onde não nasceu? O que há de “alto/honrável” nisso? Onde está o próprio mérito, digno de admiração? Fico imaginando minha mãe grávida de mim. E se ela tivesse resolvido naquela época fazer um passeio na Argentina e eu tivesse nascido lá? E então? Deveria sentir agora orgulho de ser argentino? Vê como isso é relativo e, na verdade, sem real importância? Países, nações, fronteiras não existem realmente. São uma construção dos seres humanos, que talvez faça sentido para melhor administrar nosso mundo. Mas só isso. Ninguém escolhe onde nasce, não há nada de honrável e nem mérito pessoal algum nisso e não vejo nenhuma relevância nessa questão.

O mesmo vale para a cor de pele. Que sentido faz sentir orgulho de ser negro, branco, amarelo, verde ou azul? Aqui também não há mérito (ou demérito), também aqui não há nada de creditável (ou descreditável) de valor e honra, do mesmo jeito que não há motivo para sentir orgulho do nariz ser grande ou pequeno, reto ou torto, pontiagudo ou redondo… A própria definição de “raças humanas” é errada, já que só existe uma raça (somos geneticamente iguais – com exceção da mutação de alguns cromossomos para que possamos nos adaptar ao clima de onde vivemos). Assim como os países e fronteiras, o conceito de raças humanas é uma construção, algo fictício, que infelizmente usamos para dividir os seres humanos. Então, não faz qualquer sentido sentir orgulho da cor de pele (ou de qualquer outro aspecto físico).

Orgulho de sua terra natal é na verdade nacionalismo:

“preferência pelo que é próprio da nação a que se pertence, exaltação de suas características e valores tradicionais, à qual em geral se associam a xenofobia e/ou racismo, além de uma vontade de isolamento econômico e cultural”

ou bairrismo:

“devoção de afeição especial ou exagerada à sua terra, com sentimentos e/ou atitudes de hostilidade ou de menosprezo para com as demais”

ou ainda patriotismo:

“sentimento de devoção à pátria”

E o termo certo para o orgulho de ter esse ou aquele aspecto físico é na verdade aceitação (daquilo que é como é e não podemos mudar) ou mesmo amor próprio.

Acho que deveríamos nos esforçar para empregar as palavras corretamente, ao invés de corrompê-las para usá-las contra outras pessoas ou contra nós mesmos ou para justificar nossa postura perante a vida. E “orgulhar-se do próprio orgulho” e cobrar de alguém que sinta orgulho de algo que não faz qualquer sentido tem, na verdade, outra definição:

“atitude prepotente ou de desprezo com relação aos outros; vaidade, insolência”

Portanto, sinta orgulho, mas sinta orgulho daquilo que realmente fizer sentido, do que for verdadeiramente honrável e não de coisas que somos ou temos sem que nem sequer as tenhamos escolhido.

Para terminar, gostaria de contar uma conversa que tive há dois dias (mais uma vez a palavra orgulho me perseguindo!): falávamos de meu filho e de como ele está bem encaminhado, trabalhando e estudando e (!) sendo uma pessoa feliz. A pessoa com quem eu conversava me perguntou se eu não sentia orgulho de pai. Respondi que sim, caso a palavra orgulho aqui significasse “satisfação de ver meu filho bem”. Mas, em geral, ao vê-lo bem, o sentimento que predomina em mim não é de orgulho, mas de alívio de um pai modesto que sabe que tudo que fez poderia ter dado errado, mesmo que eu tenha me esforçado e feito o melhor possível.

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Gustl Rosenkranz
Blogueiro brasileiro residente em Berlim.



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