Mentira

Apesar de tudo, às vezes eu invento de me apaixonar rapidinho, como quem vai ali na feira em frente de casa comprar um saco de laranjas maduras. Às vezes é tudo planejado, e às vezes as coisas fogem do plano. Às vezes eu consigo acertar o final e, às vezes, mesmo que eu não queira, sai tudo diferente e eu ainda sofro por amar demais. Essas paixões são coisas rápidas mesmo, super voláteis, a ponto de outra pessoa nem sequer imaginar que foi alvo de um amor platônico e passageiro. Eu gosto e não gosto quando isso acontece. Gosto porque me distrai e eu fico mais acesa pras coisas da vida e pros sentimentos que eu gosto tanto. Gosto porque me sinto viva e isso resulta em textos frondosos como a mangueira do meu quintal. Gosto porque me deixa com um sabor de segredo na boca e se tem coisa que me delicia é sabor de mistério na língua.

Gosto porque invento mil cenários onde tudo acontece milhões de vezes até sair perfeito e porque nesse cenário eu sou mais divertida e irresistível do que o costume. Gosto porque é uma forma de passar o tempo de forma poética e segura. Gosto porque me sinto um pouco longe de casa e se tem coisa que eu adoro é gostinho de novidade. Gosto porque parece que eu estou fazendo alguma coisa errada, mas na verdade eu não tô fazendo nada mais do que utilizar minha imaginação de uma forma um pouco mais despudorada. E gosto também porque na maioria das vezes eu consigo ver o olho da outra pessoa brilhar e isso me excita mais do que qualquer outra coisa na vida. A parte que eu não gosto fica por conta dessa necessidade que eu tenho de querer estar sempre apaixonada por coisas e pessoas que não existem nesse mundo. Eu invento personagens. Me apaixono por elas. Depois descubro que foi tudo imaginação minha e parto pra outra sem a menor cerimônia. Uma descortinando a outra. Uma me distraindo da outra. Pulo de galho em galho até voltar pra casa dos braços do meu amor, que me espera sempre de braços abertos. Talvez porque ele não saiba das minhas escapulidas imaginadas. Talvez por isso mesmo e por serem justamente e simplesmente fruto dessa minha imaginação fustigada e imprópria para maiores apaixonados. E eu volto pra casa tranquila e com saudades do meu amor pra sempre, que me acompanha pra onde quer que eu vá. Que me mostra toda a beleza e infinidade de um amor bem amado, sem data certa pra acabar. Um amor que também já foi uma dessas paixões de momento, mas que soube ser esperto o bastante para me fazer querer ficar.

Crônica do livro “As Maravilhas do País de Alice”, Scortecci Editora, São Paulo, 2008.

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Alice Venturi
“Burila as palavras com a maestria de quem enxerga as veredas do ser como pontos de passagem, onde tudo é passível de transformação. Os sentimentos se entrelaçam, vão da risada escancarada à mágoa que mancha as horas com um encardido que não sai fácil. As palavras dela não saem fácil da gente, perpetuam-se nos recônditos espaços, proliferam sentidos e criam raízes fundas. A “Palavra” que estilhaça e esfuzia sentidos é a mesma que embala e cura a alma das mazelas cotidianas. Chega para sublinhar a sofisticação do simples, para propor o jogo poético das imagens que se entrelaçam desvelando tudo que vibra e faz vibrar. Fotógrafa, poeta, produtora artística e professora são algumas das nuances dessa carioca de alma furta-cor que vive suscitando diálogos entre os diversos campos artísticos e convocando à emoção, ao delírio ─ ao voo. Formada em História da Arte pela UERJ, Alice tem um livro publicado, “As Maravilhas do País de Alice”, pela Scortecci Editora, 2008”. Ester Chaves



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