Deixe quem escolheu ser o problema ser

Vamos brincar de “quem nunca”? Quem nunca recebeu de uma despejada só a célebre frase: “o problema não é você, sou eu”?. Na maioria das vezes, quem escuta isso fica boquiaberto sem entender qual foi o instante em que ele ficou fora do mundo e não percebeu os eventos que ocorreram ao seu redor para conduzir àquela situação. Após estes momentos de lógico assombro, a pessoa começa a se questionar sobre o que fez para provocar aquilo, onde errou, o que falou, entre todas outras milhões de razões para alguém usar uma desculpa tão sem nexo e causalidade. Existe algum prazer sádico que habita o inconsciente humano e, perversamente, luta para atrair para si toda a culpa de situações como essas. Até mesmo os mais autoconfiantes, que podem estar lendo este texto e pensando: “ah, comigo não…”, em algum momento dramático, já devem ter se rendido a esta tentação ardilosa ou chegaram bem perto.

Quando alguém disser “o problema sou eu”, deixe que ele carregue sozinho as mazelas da sua desculpa esfarrapada; permita que ele ponha nos ombros o peso das decisões que tomou, por motivos que não tem coragem de compartilhar ou que simplesmente desconhece. Pare de tentar encontrar desculpas para justificar o vazio desta frase. Pare de tentar atrair a culpa a si mesmo. Se alguém precisa de uma desculpa tão vazia para se afastar de outro alguém, de fato, ele deve mesmo ser um verdadeiro problema.

A integridade de um relacionamento se constrói à base de franqueza e tenacidade. De nada serve uma pessoa que não fala a verdade, que oscila em suas vontades e não sabe o que quer. Um sujeito que usa de um subterfúgio tão fútil e vulgar não pode ser considerado um parceiro forte, por vários motivos, mas principalmente porque:

1 – a humildade consiste na renúncia do ego e admitir as próprias falhas, propondo-se a correção. Ora, se alguém tem um problema e é humilde, deve se propor a correção e não se esconder do mundo. Relações fortes exigem humildade. Não há amor que sobreviva ao orgulho exacerbado.

2 – pessoas que não são francas o suficiente para expor um problema como ele realmente é não são confiáveis. Se não são confiáveis, como podem ser adequadas para um relacionamento?

3 – quando houve ou há algum tipo de sentimento de afeto por outra pessoa, costumamos guardar consideração por esta pessoa. Consideração é respeitar os sentimentos do outro, é dar importância ao sofrimento dele e explicar as próprias atitudes, para evitar que ele remoa desnecessariamente, sinta coisas que não precisa sentir ou responsabilizá-lo se for ele o culpado. Enfrentar nossos defeitos nos faz crescer.

4 – maturidade é conversar de igual pra igual, sem jogos, sem rodeios, sem fazer toda essa reinação na mente do outro. É pôr ponto final da forma que iniciou, olhando no olho, falando com todas as letras e engolindo a covardia. Pessoas maduras não se escondem atrás de um jargão vulgar, usado em folhetim barato.

O uso deste jargão demonstra falta de criatividade, de humildade, de franqueza, de consideração e de maturidade, além de diversas outras coisas, mas o pior é, que terminar o que um dia já foi bonito desta forma, antes de mais nada, é CRUEL. É dizer para o outro: “eu não me importo com todo o sofrimento que você vai viver buscando motivos para essa rejeição, eu apenas quero me livrar de você.”. São palavras duras, eu sei. Mas para crescer, muitas vezes, precisamos encarar a coisas como são, tirar essa película de beleza e mágica que insistimos em usar para disfarçar o que não queremos enxergar. As coisas mais importantes aprendemos por meio da dor. Portanto, quando ouvir este bordão vulgar: “o problema não é você sou eu”, deixe quem escolheu ser o problema ser. Provavelmente esta pessoa está tão perdida dentro de si mesma e envolta numa vida tão infeliz, que já não pode se dar a alguém. Não tente se convencer do contrário, ninguém deve lutar para provar a si mesmo que é o problema. Deixe quem tomou esta culpa para si ser o que ele quer ser. Na vida, cada um encena o papel que escolheu.

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Rândyna da Cunha
Rândyna da Cunha nasceu em Brasília, Distrito Federal, em 1983. Graduada em Letras e Direito, trabalha como empregada pública e professora. Tem contos publicados em diversas revistas literárias brasileiras, como Philos, Avessa e Subversa. Foi selecionada no IX Concurso Literário de Presidente Prudente. Participou da antologia Folclore Nacional: Contos Regionalistas da Editora Illuminare e das coletâneas literárias Vendetta e Tratado Oculto do Horror, da Andross Editora- http://lattes.cnpq.br/7664662820933367



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