Como se perder um grande amor

Os poetas que me perdoem, mas pior do que viver sem amor, é ter que esquecer um grande amor. É ter que reaprender a viver só. É ter que retirar alguém das entranhas da sua rotina a golpes de faca sem corte, porque esse amor resolveu visitar outras cercanias sem a sua companhia. Ou porque simplesmente resolveu ir embora, assim, quase sem avisar. Por que ninguém avisa que um grande amor também pode um dia se acabar? Ter que esquecer uma grande amor, é o não esperar o telefone tocar, porque ele simplesmente não irá tocar. É o acostumar-se com aquela ausência-bigorna a martelar nossa cabeça desde às seis da manhã, quando mal acabamos de abrir os olhos e a vontade é de de repente, talvez, quem sabe, fechá-los pra sempre. Porque quando não se ama, não se ama e pronto. O que fica é aquela vontadinha de ter alguém por perto e só, apesar disso não ser pouco. Mas quando a gente tem que assassinar alguém dentro da gente, essa vontade vira vício. Desespero. Abstinência sem cura. E vida vira um calabouço escuro, por onde a luz passa a entrar aos poucos. Bem aos poucos. Quase não entrando nunca. Eu fui trancada nesse calabouço há um tempo atrás. Não me deram comida. Água. Não me deram nada. O máximo que me chegavam eram uns poucos poemas pela manhã, quando até o sol ainda estava com preguiça. E como ninguém vive de poema, os dias foram passando e com eles, meus melhores olhares. Porque quando a gente precisa ver um grande amor ir embora, é como uma doença que se alastra rápido, sem dar tempo de maiores despedidas. E o luto fica pela casa como um incenso. Pesado como toda perda. Impreciso como toda tristeza. E inesperado, como quase todo abandono.

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Alice Venturi
“Burila as palavras com a maestria de quem enxerga as veredas do ser como pontos de passagem, onde tudo é passível de transformação. Os sentimentos se entrelaçam, vão da risada escancarada à mágoa que mancha as horas com um encardido que não sai fácil. As palavras dela não saem fácil da gente, perpetuam-se nos recônditos espaços, proliferam sentidos e criam raízes fundas. A “Palavra” que estilhaça e esfuzia sentidos é a mesma que embala e cura a alma das mazelas cotidianas. Chega para sublinhar a sofisticação do simples, para propor o jogo poético das imagens que se entrelaçam desvelando tudo que vibra e faz vibrar. Fotógrafa, poeta, produtora artística e professora são algumas das nuances dessa carioca de alma furta-cor que vive suscitando diálogos entre os diversos campos artísticos e convocando à emoção, ao delírio ─ ao voo. Formada em História da Arte pela UERJ, Alice tem um livro publicado, “As Maravilhas do País de Alice”, pela Scortecci Editora, 2008”. Ester Chaves



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