A vida é um sopro

– Papai, para onde a vovó foi?
– Como assim, Paulinho?
– Onde a vovó foi morar ontem?
– Ah, a vovó? Bom, ela foi morar no céu.
– O céu é perto?
– Vamos pra escola? Já estamos atrasados!
– Papai, onde é o céu?
– Ah, Paulinho, o céu é aquele lugar lá ó.
– Parece longe.
– É, pois é.
– Se fosse perto, papai, podíamos visitar a vovó.
– Podemos falar com ela nos sonhos!
– Sério?
– Sim! Você pode conversar com ela sempre que sentir vontade.
– Como?
– Ora, antes de dormir você pode fazer uma oração e dizer a vovó o quanto você a ama. Ela vai escutar.
– A vovó está na casa de Deus?
– Sim, isso mesmo.
– Entendi, papai! A gente liga pra Deus e pede para falar com a vovó.
– É isso mesmo!
– Empresta o celular, papai.
– Filho, você pode falar com a vovó sem o telefone.
– Pelo ar?
– Pelo pensamento, meu amor.
No outro dia, durante o café da manhã:

– Papai, por que você trabalha tanto?
– Como assim, Paulinho?
– Ué, você não para quase em casa e nem fica perto da mamãe.
– É que o trabalho do papai é muito corrido, filho.
– Por que você não corre menos?
– Paulinho, você é muito pequeno ainda. Um dia vai entender que nós precisamos trabalhar muito para dar conforto a nossa família.
– O que é conforto, papai?
– É poder comprar o videogame, ir para o cinema, jantar naquele restaurante que você adora, essas coisas.
– E se a gente vendesse o videogame? Você ficaria mais em casa?
– Filho, não é assim que funciona a vida.
– É sim, papai! Você precisa trabalhar menos e cuidar mais da gente.
– Que papo é esse agora, Paulinho?
– É isso mesmo, papai! A vida passa rápido, é como um sopro!

(Silêncio).

– Quem disse isso pra você?
– A vovó.

(Silêncio).

– Você está certo, meu filho. O papai precisa correr menos.

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Ju Farias
Não nasci poeta, nasci amor e, por ser assim, virei poeta. Gosto quando alguém se apropria do meu texto como se fosse seu. É como se um pedaço que é meu por direito coubesse perfeitamente no outro. Divido e compartilho sem economia. Não estou muito preocupada com meus créditos, eu quero saber mesmo é do que me arrepia. Eu só quero saber o que realmente importa: toquei alguém? É isso que eu vim fazer no mundo.



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