Temos algo em comum

A gente não se escolheu. Aconteceu. Acho que temos algo em comum. Sim, temos. Eu gosto de pizza quatro queijos e você não sai de casa sem antes levar um sanduíche de frango com um par de folhas para comer no intervalo do jogo.

Temos muito em comum, desde as minhas canções preferidas de Vander Lee e a sua coleção do Coldplay adquirida no último show. Temos várias coincidências, sim temos. Sou noturna e você abre um sorriso largo quando o sol se aproxima. Geralmente ouço a Marrom cantar quando estou no banho enquanto você tenta soletrar Tiaguinho com pensamento na Giovanna Antonelli.

Combinamos até no meu sorriso matinal e sua cara amarrotada, com rugas adormecidas. Distância não me desencoraja e você esquece o trabalho quando sai de férias para o litoral. Faço um esforço para agradar gregos. Já você, só agrada a troianos.

Não sou contra o seu pé feio que disputa lugar embaixo da mesa com os meus pés gordos. Também não me importo se a nossa paixão futebolística sai do extremo entre a minha preferência em assistir Jô Soares e a sua bandeirinha rubro-negra. Tudo isso é constitucional, inclusive engajar-se em campanhas em prol da vida; coisa que faço com muita facilidade e que combina com sua cara de desacreditado no meu pouco fôlego.

Entre nossas combinações ainda estão a bisnaga quentinha na padoca da esquina em domingos de sol e o seu pão de queijo com café fresco feito na cozinha de casa. Acho justo esse nosso tetê-à-tetê vertendo no canto dos lábios por causa das nossas combinações entre quem faz o jantar e quem lava a louça. Três beijinhos e um abraço suado, a gente desfaz as contradições e escuta Robim Willians enquanto eu esquento o canelloni e você coloca os pratos descartáveis na mesinha da sala.

Fomos feitos um para o outro tal a indisposição do seu coração para romance e o meu exagero convicto de que amor que se preze é como assistir Ghost . Milito na sua causa e admiro as escondidas Fernanda Young, apenas para não contrariar seu gosto pelo Galvão Bueno, gritando “vai que é sua”.

Você quase me desafia, quando busco resposta pra tudo com esse meu lado feminino torto e a sua sensatez para o real, concreto e prático. Tudo bem. A gente não briga por esse detalhe sórdido. A gente se entende e respeita. Eu sou de gêmeos, adoro uma tatuagem e curto Rita Lee. Você é sagitariano, empreendedor e ainda acredita que Elvis não morreu.

Nesse nosso palco de interações, fico na dúvida se a casa amarela está situada à esquerda, enquanto você teima em não perguntar ao guarda se é proibido estacionar naquela faixa forte pintada no chão. Quase nos une, a minha confusão com endereços e seu lado durão no volante. Eu gosto de flores e você esquece as datas. Chocolate cura meu stress, enquanto você mastiga aquele drops apimentado.

Temos ainda uma transmissão de sintonia após a dança colada, a fugida para um motelzinho na beira de estrada com uma combinação muda de quero mais e um silêncio ensurdecedor do seu cochilo pós exercício.

Nosso silêncio é cúmplice, mesmo sendo resultado de minha cara emburrada querendo discutir a relação e seus monossílabos afrodisíacos dizendo nada. Temos essa maturidade como termômetro de que combinamos em tudo, inclusive no amor: um sentia muito e outro sentia demais.

Pelos meus cálculos temos tudo: química, indicadores de tesão, afinidades individuais, e gostamos de Woody Allen, enquanto o nosso amor perdura para todo sempre.

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Ita Portugal
Maranhense, pedagoga e insistente para que suas palavras tomem o rumo da vida e façam arruaças afora como sinal de esperança, alegria e amor.



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