Sempre fica algo por dizer

“É aquela coisa que fica na garganta, sabe?” – ela disse no dia em que a conheci.

Ela bebia um copo de vodca com energético enquanto me falava do seu antigo relacionamento, sem saber que eu seria o próximo, sem saber que ali era o inicio de uma longa história. Eu também não sabia, mas prestei atenção nas suas palavras, parecia que havia muito sentimento nelas, mais do que pudesse caber naquele corpo pequeninho. E se ela não conseguiu dizer para ele, ela disse para mim. Percebi que de alguma forma, aquilo sempre é dito, mesmo que não seja para a pessoa correta.

Um dia acabou. De repente, ela foi embora e eu não disse tudo o que tinha para dizer. Aquela coisa que fica na garganta, sabe? Eu finalmente entendi na prática. Nunca soube bem quais palavras eram, se era um pedido de desculpas, se era algum xingamento que a fizesse sentir a mesma dor que me causou ou simplesmente um “te amo”. Acho que eu disse que a amava antes dela sair de casa com a mala na mão, então eu não soube muito bem o que era no momento.

De qualquer forma, parece que sempre fica algo por dizer, algo que trava, que não deixa seguir em frente ou até deixa depois de certo tempo, mas ainda assim, volta e meia aquilo vem à cabeça para incomodar e imaginar como seria se houvesse a oportunidade de dizer. Na verdade, só se perde a vontade de dizer quando aquilo deixa de fazer sentido.

É que ocasionalmente o que não foi dito teria mudado tudo, e outras vezes ouvir já não faz mais sentido algum, mesmo que, na boca de quem fala, sempre é importante. Talvez sempre fique aquela dúvida de que, se fosse dito o que ficou na garganta, de fato mudaria alguma coisa no universo. Mesmo quando um dia aquilo tudo se torne apenas exatamente isto: uma dúvida.

Difícil mesmo é ter a chance de dizer, às vezes a pessoa já está longe demais das nossas vidas para isso. Difícil mesmo é ter coragem para dizer e suportar o peso das palavras e as suas consequências. É mexer em todas as feridas que – mesmo adormecidas – ainda estão dentro do locutor.

Difícil mesmo é saber o que dizer, porque o que fica não são palavras, mas sentimentos. E nem sempre se é o melhor tradutor de si mesmo, nem sempre se é o melhor em decodificar o que se sente. Difícil é encontrar as palavras que resumam o quanto ficou quando o outro já foi embora. É a vontade de ser totalmente transparente naquele momento e demonstrar para a pessoa e para si mesmo as verdades da alma.

Na maioria dos casos, quase nunca é dito, porque no fundo entende-se que algumas pessoas não merecem uma explicação ou uma resposta, percebe-se que algumas pessoas não merecem tanto de nós. Então se vive esperando o dia em que, dizer tudo o que devia ser dito não precise mais ser exposto.

E como lei da vida, nunca se diz tudo para aquela pessoa que se foi. E tantas palavras que deveriam ser ditas, viram silêncio no fundo do coração.

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Francisco Galarreta
"Empresário, 26 anos, peruano, mas gaúcho de coração. Meu fascínio é observar as pessoas e compreender os sentimentos alheios. Sofro de empatia crônica e sou adicto em criar emoções. Como resultado destas características, nascem inúmeros textos sobre amor, relacionamentos e outras variáveis."



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