Quando foi que gostar de alguém se tornou algo ruim?

Por Márcio Rodrigues

Na minha cabeça era para ser algo leve e gostoso de viver, não essa arapuca toda em que a gente se vê envolvido. Por quê o simples gostar de alguém pode se tornar em algo tão devastadoramente assombroso? Por quê a gente tem que ser menos quem somos para fazer parte de um tal jogo do gostar? Por quê eu tenho que demorar para te responder se a minha vontade é responder já? Que mal tem? “Ah, aí a pessoa vai se assustar né, por isso” – mas e se a pessoa amar receber uma resposta rápida? E se for eu o primeiro a responder rapidamente? E essa atitude é ruim? E se eu responder rapidamente, ela também, a gente se ver e ficar juntos rapidamente? Isso é ruim? Será que se ela se assustar por eu responder rápido não significa que ela não é bacana para ficar comigo? E quanto mais rápido eu souber, menos tempo a gente vai perder tentando? A gente está numa competição entre o sentir x o demonstrar? Quem demonstrar menos ganha? Ganha o que? Quanto menos os dois ficarem juntos, não é pior para os dois? Ninguém ganha.

Quando foi que gostar de alguém passou a ser algo ruim?
O que Romeu e Julieta pensariam se pudessem ver no que nós transformamos o amor? Quantas perguntas, né? Tem muito mais! Está tudo tão estranho que nem dá para explicar direito. Por quê a gente briga se alguém só leu e não respondeu?

Não seria bacana a gente só gostar de ficar perto de quem gostamos enquanto temos vontade? E aí a gente se distanciar quando algum de nós não querer mais? Não daria para funcionar assim? Qual é a dificuldade?

A gente conseguiu problematizar o amor. Conseguimos transformá-lo em instrumento de tortura. Pegamos todos os seus benefícios e o amaldiçoamos! Afinal, se eu demonstrar que estou gostando de você, o que é básico na premissa do amor, pode ser um perigo para mim. Se eu disser que estou com saudade, poucos momentos depois te ver, vai parecer pressão e que estou sufocando a sua vida. Mas isso era carinhoso há pouco tempo atrás. Alguém ainda gosta disso? Sempre foi legal de dizer e sentir.

Eu queria voltar ao tempo que a gente só vivia as coisas e falava o que sentia. Naquele tempo, a gente passava horas no telefone falando com a pessoa – até a orelha arder. A gente mandava uma mensagenzinha de bom dia e um de “cheguei em casa”, sem a preocupação de parecer perseguição ou qualquer tipo de pressão. A gente gostava de cuidar da pessoa porque ela gostava de ser cuidada também – assim como todos nós. Quando a gente só vivia as coisas que a gente sentia ao invés de problemetizá-las, a gente fazia declarações cafonas. A gente gostava de comprar coisas ao lembrar da pessoa – mesmo sem ter algo sério com a pessoa. A gente chegava em casa e fazia as coisas super rápido para ter tempo livre o bastante para a ligação sobre como foi o dia. A gente só gostava de ficar perto, de ouvir a voz, de falar que amava, de responder que também ama e de ficar na fila do cinema de mãos dadas.

Quando foi que tudo mudou a ponto de eu não poder te falar uma coisa boa? Se não essa coisa boa vai parecer grude da minha parte? Será que nós viramos aquelas peças que a gente troca, tipo: não deu essa, vamos tentar com outra. Essa também não deu, pode ser essa então. No que nós transformamos as histórias?

Jura mesmo que nós viramos peças de um grande jogo do amor? Que eu preciso seguir regras ao invés de seguir meu coração? Que eu não posso dizer que só fiquei te olhando feito bobo por te achar bonita e gostar de você, pois se eu fizer isso eu vou demonstrar que estou “gostando demais, rápido demais”. Jura mesmo que a realidade hoje é esse papo de joguinhos de amor? Quando foi que o relógio passou a ser o controlador do coração? E o pior: em que escola se aprende a como dizer para o coração o que ele deve sentir? Ou então: onde se aprende a ignorar o coração e viver sem sofrer? A não ser, pode ser isso, que sejamos hoje um bando de sofredores profissionais, colecionando armas e escudos para o coração. Olha o que nos tornamos! Te beijei ontem e queria tanto te falar que queria te beijar hoje, mas “eu preciso esperar você mandar a mensagem primeiro”, porque “faz parte”. Isso é tão triste. A gente não pode deixar isso acontecer. Nós, eu e você, nós que somos eternos confiantes sobre o lado bom da vida não podemos deixar que transformem o amor que amamos em um sentimento para sentirmos. Vê a diferença? Não podemos deixar que estraguem o prazer de começar uma história com alguém e ouvir, pela primeira vez, que esse alguém nos ama. Não podemos assassinar a espontaneidade dos sentimentos. Não podemos deixar de ser quem somos para evitar sofrer. A GENTE TEM QUE SOFRER QUANDO A VIDA ACHAR QUE DEVEMOS! Sofrer nos faz crescer. Sofrer nos ensina a ser melhor. Sofrer por amor faz parte da vida feito dias de chuva e sol. O amor também envolve o sofrer e os refrões de fossa deitado na cama de rosto para o colchão. Mas sofrer é só um pedacinho, o amor puro é muito mais que isso. Todo mundo sabe que o amor é mais que sofrer.

Deixa eu te fazer um pedido?
Continue amando mais e jogando menos.
Sendo mais você e menos um personagem de você.
Errando mais por excesso do que pela falta.
Respeitando mais o que sente do que as regras que te dizem.

Você será melhor, serei melhor, seremos melhores e mais felizes.

Tipo como o amor quer que a gente seja e como a vida merece ser vivida.
Não dá para ter certeza de quando foi que gostar de alguém se tornou algo ruim, mas dá para gente evitar com que isso se torne algo maior e fora do nosso controle; da para fazermos alguma coisa, sermos mais reais, tudo isso e muito mais para preservar o amor que gostamos de gostar e o que gostamos de sentir. Quando vivemos o amor como um jogo nós só temos a perder. E ele é bem mais que você, eu e nós.

via Um Travesseiro Para Dois

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A Soma de Todos Afetos
Blog oficial da escritora Fabíola Simões que, em 2015, publicou seu primeiro livro: "A Soma de todos Afetos".



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