Do grão que a saudade é feita

A maioria dos meus amigos sentem falta do ensino médio ou da graduação. Encontro pessoas, ocasionalmente, quando vou a minha cidade natal ou pela internet e o papo é o mesmo. “Bons tempos, hein”. Frequentemente, ouço ou leio o saudosismo alheio e as letras flutuam na minha frente. Eu não sinto falta de nada que eles sentem. Não sinto falta da minha baixa autoestima. Não sinto falta dos apelidos maldosos. Não sinto falta do meu aparelho ortodôntico. Não sinto falta de ficar na biblioteca da escola, no corredor de Literatura Brasileira, escondida, lendo Lispector. Não sinto falta de nenhum dia. Eu pularia meu ensino médio inteiro para a graduação. Que por sinal, não é nada parecido com American Pie, crianças! Como se eu tivesse acesso a minha história dentro de uma matrix, comecei buscar algum momento da minha existência que tivesse deixado em mim, um rastro de saudade.

Lembrei de quando eu acreditava que era dona do tempo, do vento e das tempestades. Lembro nitidamente em como me sentia incorporada e conectada com o mundo quando a chuva vinha de longe, de trás do morro do Itabira. Era uma cortina fina vindo. Ventava, ventava e ventada. Eu erguia os braços para o céu e ordenava que a chuva viesse. E a chuva vinha, vinha e vinha até tocar o chão. Até levantar o cheiro de terra molhada. Até me molhar inteira e sermos uma coisa só. Corria na varanda e subia no muro, no ponto mais alto. O vento me despenteava inteira. Eu estava lá, ordenando o tempo… A mãe ficava louca: Desce daí, menina! A mãe tinha medo de raio, mandava esconder todos os espelhos, desligar os eletrônicos. A mãe nunca entendeu que eu nunca tinha medo, porque estava no controle de tudo. Eu mandava no raio, no vento e na chuva. Senti falta da certeza que eu tinha. Senti falta dos meus pés descalços, do meu cabelo desgrenhado e a minha falta de senso de juízo. Eu olhava para os morros e tinha certeza de que lá vivia um gigante. Todos os dias, à noite, os passos do gigante me acordavam. Era ele: Tum-tum-tum-tum. O gigante tinha passos pesados.

Existia algo além do gigante. Algo além dos morros. E além. E além. Desde o dia que descobri que existia um “além”, tornei-me inquieta. Senti falta de quem eu era antes da minha inquietude. Senti falta da paz que eu tinha e que foi substituída por essa vontade avassaladora de ir embora sempre. Fui para mais remota memória para sentir falta do momento exato do eu-grão. Eu-germinei. Eu-saí-por-aí. Quem em sã consciência sentiria saudade da adolescência, fase infernal, hormônios à flor da pele? O que é a adolescência perto de uma atiradora de raios? A menina dos morros uivantes foi batizada para ir. Verbo intransitivo que transita na minha vida. Saudade do tempo que eu sabia mais do verbo permanecer. Ergo os braços mais uma vez e ordeno ao tempo: Venha.

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Maria Gabriela Verediano
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