O segredo da simplicidade

Por Marcela Picanço

Não sei nem como começar a dizer isso, mas te acho um fracasso. Não como pessoa, não me entenda mal, mas um fracasso pra tentar me conquistar. Pra começar, disse que ia me pegar em casa e ia me levar pra comer alguma coisa. Até aí, tudo bem, né? Eu podia ir sozinha, mas é bom ir com a pessoa porque a gente já vai conversando. Então fomos a um restaurante. No caminho decidimos pra onde iríamos.

Assim que chegamos, você saiu rápido do carro e veio abrir a porta do outro lado pra mim. Mas é óbvio que eu já tinha aberto antes de você chegar. Ri meio sem graça. Queria dizer ” minha mão não tá quebrada, não. Pode deixar”. Não quis parecer indelicada, então só disse “obrigada”. Você só tava querendo me impressionar. Mas teve o efeito contrário. Odeio quem tenta me impressionar com essas ações que já estão prontas. Você nem pensou em nada. Só agiu da forma como algumas mulheres gostam de ser tratadas, mas você nem teve tempo de pensar ou observar se eu era uma delas.

Estamos no século 21. Era bonito fazer isso nos anos 20, mas a cordialidade de hoje em dia é outra. Ninguém tem mais paciência pra ficar fazendo esse teatrinho o tempo todo. Depois do terceiro encontro você já não ia nem lembrar de abrir a porta. E é por isso eu acho tão falso esse tipo de educação barata. Que que adianta você abrir e porta pra mim e tratar mal o garçom? Esqueci essa cena e fomos comer.

Você é um cara engraçado e tal. Tem um bom papo. Mas um bom papo de superficialidade. Aquele tipo de conversa que você tem com um amigo de um amigo que você acabou de conhecer. Conversa leve e descontraída, pra não errar. Você não tinha lido os livros que eu li e nem gostava dos filmes que eu mais gosto. Na verdade você quase não leu livro nenhum e riu, realmente achando engraçado, depois de me falar isso.

Chegou a conta. Você quis pagar, é claro. Não deixei. Você achava que eu tava fazendo charminho pra parecer educada e pegou a conta da minha mão. Olhei sério pra você e disse “vou pagar a minha parte, é sério”. Você me olhou com cara de espanto e insistiu. Sabe, eu nem acho que tenha problema um amigo ou uma amiga ou até o cara que eu to saindo, pagarem a conta quando eu to sem dinheiro. Eles sabem que em outra hora vou pagar outra conta pra eles. O problema é quem quer pagar a conta com ar de superioridade, achando que está fazendo um grande favor e sendo um grande cavalheiro. Agora você ta pagando minha conta, mas amanhã ta falando pra onde eu posso ir ou que meu vestido tá muito curto.

Não sou sua, mesmo se eu tiver casada com você há 50 anos. Sabe, pagar a conta era educado quando as moças não trabalhavam e ficavam esperando o seu futuro marido que iria bancá-las. E a maioria não se orgulhava disso. Daí algumas mulheres de hoje se acham espertinhas e acham que o homem tem que pagar tudo mesmo. Mal sabem elas que estão preservando uma cultura machista e totalmente do século passado. Hoje as mulheres trabalham, podem pagar suas contas e não dependem financeiramente de ninguém. Mas ainda existem uns gaiatos que se acham muito cavalheiros por “bancarem” uma mulher. Deixem de ser otários.

Paguei metade e você ficou se sentindo mal por deixado isso acontecer. A volta pra casa foi mais fria, mas depois você ficou mais tranquilo. Assim que paramos o carro lembrei que antes de sair de casa, tinha arrumado tudo esperando que você fosse subir. Mas você nem esperava que eu fosse fazer isso. Eu tinha esquecido que pra você, as meninas não devem chamar os caras pra subir, e nem subir pra casa deles nos primeiros encontros, senão elas perdem o valor. Então lembrei disso, te dei um beijo no rosto e fui embora, te achando um idiota. No outro dia, você me mandou flores, achando que eu ia me derreter e achar muito fofo. Mais uma mancada. Mais uma educação pronta e barata pra tentar me conquistar. Eu esqueci de te dizer que odeio receber flores.

Se você quisesse realmente ter me conquistado, você teria me chamado pra tomar uma cerveja em botequinho na esquina ou pra uma festa estranha com gente esquisita. Teria me contado suas histórias, eu teria contado as minhas. E a gente ia ter uma conversa longa, descobrindo a vida um do outro. Claro que você ia tentar me impressionar, mas antes ia tentar descobrir o que me faz ficar impressionada. Não chegaria com respostas prontas. Você ia ser você e eu ia ser eu e a gente ia ver se se gostava assim mesmo. Talvez ficássemos amigos, talvez tivéssemos algo mais. Nunca se sabe… Só queria te conhecer. O que me conquista é a simplicidade. Ser simples é ser incrível. E quem conhece o segredo da simplicidade conhece o melhor da vida.

Para ler mais da autora acesse De Repente dá Certo

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A Soma de Todos Afetos
Blog oficial da escritora Fabíola Simões que, em 2015, publicou seu primeiro livro: "A Soma de todos Afetos".



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