Não quero ter um milhão de amigos, quero ter menos para ter bons

Por Michelle Oliveratto

Desculpem-me os apaixonados pela canção que diz: “Eu quero ter um milhão de amigos/ E bem mais forte poder cantar”, permita-me discordar, esse desejo não me representa, por mais que vivemos em uma cultura onde a quantidade vale mais que a qualidade, ainda insisto na ideia que menos é mais. Não quero ter um milhão de amigos e, acredito que no canto mais contido, entoado por poucas vozes, talvez no sussurro, existem emoções e poderes milagrosos.

Nas redes sociais, a notificação de solicitação de amizade é quase um certificado de popularidade. Nossas vidas, cada vez mais, virou uma dança dos números e, não são pelos números de dias que duraram aquelas férias que proporcionaram uma alegria tremenda, ou por quanto tempo durou a última crise de riso, ou quantos anos tem minha amizade mais longa, mas sim, pelos números de “curtidas” que a foto daquela festa recebeu. Pelo número de amigos que tenho em cada rede social. Tudo tem que ser muito, para assim, sermos mais. Mais amados, aceitos e populares.

E nesses tempos de excessos, o tamanho dos braços já não é mais suficiente para que estendidos, possam comportar todos os amigos da festa em uma mesma foto, inventaram o “pau de selfie”, uma estrutura metálica criada para auxiliar no registro de momentos, onde tudo é em grande escala. Isso não é uma critica, é apenas um convite para refletir se entre esses inúmeros amigos adicionados, se nas fotos onde a multidão se aglomera para o melhor registro, existe ao menos um amigo que ficará do seu lado no momento que você mais precisar. E se a resposta for sim, considere-se uma pessoa de sorte.

No meu facebook conto com uma quantidade significativa de pessoas que conheci na escola, trabalho, faculdade e em outras pequenas ocasiões. Já participei de festas e já me espremi para sair em fotos com centenas de “amigos”, mas foram nos dias sem festas, quando eu não era uma boa companhia, quando meu discurso não era descontraído e não tinha nada para oferecer, aqueles que permaneceram do meu lado é que intitulei de amigos.

São esses poucos amigos, que contabilizando não ultrapassam de três e, entre esses três, apenas uma amiga que está presente em todos os momentos, desde velório, festa de família e ouvinte incansável das minhas maiores mazelas. Foi com essa amizade que vivêncio diariamente essa mística de parentesco opcional que é ter um amigo, que vai além do elo sanguíneo. Não temos o mesmo sangue correndo nas veias, mas essa convivência é tão vital quanto.

Um amigo de verdade irá adotar sua dor como se fosse dele. Irá ouvir mil vezes a mesma história, pois sabe o quanto que aquela repetição te ajuda no processo de cura. Um amigo de verdade irá apontar seus defeitos e suas falhas com a mesma honestidade que aponta suas maiores virtudes. É aquela pessoa que quer sua companhia até quando a dor te rouba às palavras e você tem para oferecer apenas o silêncio. É alguém que vai olhar nos olhos dos teus defeitos, medos e fragilidades e te chamar de amigo. Um amigo é uma pessoa que sabe tudo sobre você, reconhece sua imperfeição e mesmo assim te ama.

Desejo que independente de como anda suas redes sociais, ou o tamanho da lista de convidados das festas que frequenta, que você saiba reconhecer na multidão os verdadeiros amigos. Que você saiba cativá-los e retribuir toda empatia. Porque como toda relação, a amizade é feita de troca, reciprocidade, tempo e momentos compartilhados. Que você tenha e seja um ótimo amigo. E como diz aquela canção do Frejat: “Eu te desejo, muitos amigos/ Mas que em um você possa confiar/E que tenha até inimigos/Pra você não deixar de duvidar”

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