Escrevi, mas não mandei

Por Márcio Rodrigues

Na verdade, deletei. Porque já escrevi outras trezentas vezes.

E, provavelmente, até o dia acabar escreverei mais quatrocentas. Não é mole, não.

Essas coisas, juntamente a outras tantas, poderiam ser mais fáceis. Eu não gosto muito de me policiar. Acho injusto comigo e com meu sentimento renunciar uma vontade do meu coração, mas a vida não é só feita de coisas que a gente gosta.

Só que eu não sei você precisa receber. Ou precisa. Não sei.

E também não sei ao certo o que eu mandaria. De todas essas vezes, muitas delas seriam por impulso e, provavelmente, eu me arrependeria de ter mandado. Bem, pelo menos se eu tivesse mandado não me arrependeria por não ter feito, né? É, mas é complicado.

A gente entra, então, num conflito entre respeitar o que sentimos ou fazer parte do jogo. E não me venha com essa de odiar joguinhos! Ninguém gosta, mas todos somos obrigados a jogar. Eu não posso, por exemplo, mandar uma mensagem se a pessoa pediu espaço. Não posso mandar outra mensagem se quem pediu espaço fui eu. Isto é, em mil momentos da vida a gente se vê numa cilada entre respeitar as verdades do coração e da razão.

O ponto é que, de novo, escrevi mas não mandei.

De novo me acovardei e preferi deixar tudo como estava. Ou será que só respeitei um motivo maior? Sem arriscar, sem tentar, sem pagar pra ver. Escrevi cada palavra como talvez nunca tenha feito antes, com uma verdade que, talvez, nunca tenha conseguido expressar antes, mas como outras tantas vezes, preferi não mandar. Eu senti medo.

Senti medo de te atrapalhar. É que o medo se manifesta de muitas formas em nossa vida.

Senti medo que a minha boa intenção pudesse te prejudicar ou que pudesse piorar ainda mais minha situação com você.

Acho que ainda vai acontecer outras vezes, não exatamente com você. São muitas as vezes em que a vontade é de mandar a mensagem, mas a gente acaba segurando. E não dá para saber o que é o certo. Falar que a melhor escolha sempre será seguir o coração é prematuro demais diante da complexidade que a nossa cabeça cria sobre: mandar ou não mandar. O coração pode falhar só para respeitar o que a gente sente.

Eu gostaria de receber o que não te mandei.

Acho que aí nasce algo a se pensar, uma vez que seria algo que eu gostaria que mandassem para mim. Mas, e como todo e cruel “mas”, ainda assim não é possível assegurar que eu faria a coisa certa. Eu gostaria de receber o que ia te mandar porque a minha posição é outra. Talvez, pelo menos agora, eu tenha feito o certo ao me omitir para você. Ou, na verdade, eu deva sim te mandar. É uma decisão a ser tomada. Não há uma verdade. Dá pra ver como é difícil.

Vou salvar todas as mensagens para te falar quando te ver. Pelo menos pessoalmente vou poder confiar mais na sua reação do que no sua resposta digitada. Não é sobre desconfiar de você, é sobre me proteger de fazer mal sem querer.

via Um Travesseiro para Dois
@marciorodriguees

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A Soma de Todos Afetos
Blog oficial da escritora Fabíola Simões que, em 2015, publicou seu primeiro livro: "A Soma de todos Afetos".



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