Quando acaba a fluxoetina

Um belo dia de chuva, em um feriado, você se levanta e reza que o dia vai ser bom se você determinar que ele será. É feriado, seu patrão diz que é ponto facultativo e você vai trabalhar. Jura, juradinho, que seu bom humor depende única e exclusivamente da sua mente linda e insana que te acompanha desde quando você nasceu. Você se esforça, pensa num pote lindo no fim do arco-íris. Repete: é o poder da mente! é o poder da mente! Não-dá-certo. Você tem vontade de chorar ouvindo Caetano Veloso, assistindo vídeos sobre trabalho escravo ou simplesmente quando bebe água. Água te remete ao mar, às gotas, à ressaca nas pedras do litoral e, enfim, choro. E é numa hora dessas, meu amigo, que você sente uma nostalgia abissal da infância. Lugar no qual você podia simplesmente se esconder debaixo de uma árvore, fechar a porta do quarto ou fingir que vai embora de casa. Bem, ninguém realmente vai, e se vai, chega na padaria da esquina e lembra que está na hora do café da vó. E volta. Seria o sonho de muita gente se tudo se resumisse a ir embora, inclusive o meu. Mas chegou a hora de parar de encarar a vida como uma novela mexicana. A vida é feita de impossibilidades também.

Ficar significa aguentar. Conquistar significa resistir. Desistir não é uma opção para os resilientes. No fim, tudo se resume ao quanto você pode aguentar sem arriar os joelhos. E esse discurso é muito mais dolorido que bonito. Viver é muito mais sobre Tim Burton do que sobre Woody Allen. Não me lembro de alguém além da minha mãe ter me contando sobre isso. E a gente nunca quer acreditar, até o primeiro tombo, até o primeiro capote, até o primeiro erro. Já que a vida não é lá esse cenário colorido da disneylândia, a gente se acostuma com a rotina autoritária furta-sonhos, a gente se acostuma com a falta de paciência, com a falta de afeto, com excesso de brutalidade. Mas nos esquecemos que os ombros são humanos e que a gente ainda sente dor, por mais que o desejo de negar seja maior.

Uma coisa dá errado, e você pensa: “hum, ok”. Duas coisas dão errado, e você pensa: “é, né, faz parte da vida”. Quando três dão errado, você acha até graça. Seus ombros estão lá, deslumbrantes, se mexendo e dançando para qualquer problemática. Você aguenta uma coisa ali ou aqui. Muda algumas coisas de lugar e segue. Afinal, bonito na vida é ter brio e viver dentro de uma literatura Augusto Cury de ser. O problema é quando sua cartilagem começa dar sinais de desgaste e alguns hematomas aparecem. De repente, o universo de fluoxetina começa desmoronar. É, amigo, não dá mais para disfarçar. Quem acredita em deuses, reza. Quem acredita na palavra, canta mantra: venha paciência, venha serenidade, venha sabedoria, venha altivez, venha coragem, venha, venha, venha. E nada aparece, nem deus, nem sentimento nenhum. Nada além da sua vontade de sentar no chão e chorar copiosamente em posição fetal.

Colega, você não está sozinho. Eu quero sentar e chorar também, mesmo sabendo que às 6 horas amanhã o compromisso da vida me chama de segunda a sexta. Eu quero sentar e chorar, porque sou humana, porque me frustro a cada descoberta. A cada vez que vejo que nada é como me contaram. Eu sei que tudo que eu e você precisamos é de paciência. O mundo não se dobra as nossas decisões em um passe de mágica. Eu sei, nós sabemos, é questão de tempo. Mas enquanto o grande lance não acontece, eu vou sentar aqui e chorar minhas pitangas. É o que eu quero fazer agora, mesmo que depois eu levante e comece dançar macarena.

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Maria Gabriela Verediano
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6 COMENTÁRIOS

  1. Bom dia Fabíola!

    Olha, cá estou eu no alto de minha insônia, e me deparou com esse texto. Li a frase inicial no face e me identifiquei. O mundo desaba e se reconstrói todo dia, e não há fluoxetina que faça esse diabo manter-se em pé o tempo todo.

    Me perguntei: Mas gente, como foi que ela tirou tudo q eu sinto de dentro da minha cabeça e conseguiu colocar tão sucintamente em palavras tão acertadas?
    Talvez por sermos parentes (distantes, será?). Talvez por ser mulher. Talvez por ser humana. Talvez por admitir a verdade que ninguém conta pra a gente, que na verdade ta todo mundo mais perdido que cego em tiroteio, e pra não causar pandemônio nos contaram todas as mentiras da nossa infância. Estudar vai te fazer feliz. Você vai ter tudo que precisa no estudo. Se você não for burro tudo será melhor. E a cada dia que passa, vejo mais sentido na frase “a ignorância é uma benção”. Vai ver sofremos porque entendemos muito, esperamos muito, ou nos prometeram muito… E nada veio. Tudo é un tormento interminável ligado no repeat. Talvez tenha data pra acabar. Talvez não.

    A verdade, é que por pra fora estas frustrações e encontrar alguém que se sente igual a mim me da um alivio… Faz com que eu não me sinta um fracasso, faz com que eu não me sinta mal agradecida com a vida, faz com que eu me sinta compreendida por pelo menos alguem que com certeza não vai dizer que eu sou mole, chata ou fraca.

    Muito obrigada pelas palavras.
    Chorei minhas pitangas cá com meu diário a noite toda, em claro. Espero que daqui umas duas horas, quando seu texto assentar aqui dentro e acabar de me acalentar eu consiga sair dançando a Macarena… Afinal é tanta coisa pra fazer… Aff… Rs

    • Michelle Rezende , sem palavras cm seu texto, cm sua visão do mundo e dos seus sentimentos, realmente as vezes a “ignorância é uma benção” espero q mesmo em meio ao caos dacemos a Macarena.

  2. Sei bem como é quando a fluoxetina acaba, o chão vai junto é tudo fica vazio; eu simplesmente choro sei que logo em seguida passa, choro & recomeço. Obrigada pelo seu lindo texto, é um alívio saber que não estou só.

  3. Ser ou não ser eis a grande questão e tantos outros questionamentos, ir ou ficar, rir ou chorar…vivenciamos cada momento de modo próprio mas lidamos com muitas variáveis que não dependem só de nós ou que esteja em nosso poder modifica-las mas a vida moderna exige postura e decisão é isso muitas vezes nos dá vontade de sentar e chorar. Felizes os ignorantes que não vivenciam esses dilemas.

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