Sobras, por Ita Portugal

Eu já fui tanta coisa. Fui artista sem plateia. Palhaça sem fazer ninguém sorrir. Ensinante sem aprendiz. Errante sem caminho. Perdida sem direção. Malabarista na estrada. Costureira de sentimentos rasgados. Menina sem inocência. Moleca feito gente grande. Doutora sem diploma. Artesã sem criatividade. Pintora de ilusões. Contadora de histórias sem pé nem cabeça. Passarinho sem asas para voar. Borboleta no casulo.

Já fui grande no coração. Pequena na fragilidade. Cantora sem nenhuma partitura.

Fui amante e amada e fiz loucuras por amor. E em muitas laudas de coisas que fui, também mudei algumas que não gostei. Mudei de profissão, mudei a cor do cabelo, mudei de casa, de estado; civil inclusive, mudei a rota, mudei o tom, mudei os critérios, mudei a frase, troquei a pilha, rompi os vínculos e tive que refazer depois. Concordei, discordei. Disse não, disse sim tantas vezes.

Já fui quase tudo sem nada. Fui de invernadas friorentas, teimando em sentir calor. Catadora de flores murchas. Já fui escuro. Claridade. Opaca por decisão. Fui da terra com os pés na lua.

Psicóloga sem habilidade. Bailarina sem dança no pé.Fui moleca atrapalhada. Rainha sem reinado.Dicionário sem palavras. Silêncio cheio de ruídos. Beata sem rosário e até santa se santidade. Fui pecadora inocente. Culpada sem merecer.

Fui moça de rua, só na calçada . Menina de família, órfã. Amante sem um amor. Bandida do coração. Estrangeira sem tradução.

Fui sem causa. Sem lei. Sem jeito. Sem teto. Sem sol. Sem doçura e sem frescura.

Escrevi poemas. Reatei amores. Apaguei paixões. Comprei vestidos. Ajudei e esqueci que fiz. Presenteei. Perdoei. Briguei. Abaixei a cabeça. Levantei a crista achando que eu era boa. Estudei o que eu achei que devia e cheguei à conclusão que deveria ter estudado mais. Exagerei na dose. Perdi a paciência. Voltei atrás. Rompi e refiz laços tantas vezes. Comprei briga e o preço foi caro. Esqueci. Perdoei. Machuquei e fui machucada. Disse sim, não, talvez, espere um pouco, deixa pra lá.

Aprendi coisas novas e esqueci coisas velhas. Comecei projetos errados. Conclui trabalhos acertados. Tomei porre. Engoli uma dose. Levei um susto. Tive equívocos. Errei os erros previstos e não cometi todos os acertos programados. Molhei as plantas. Colhi flores. Alimentei os pássaros. Escrevi e rasguei. Reescrevi e guardei. Molhei travesseiros e disse que era a última vez. Tornei a molhar várias outras últimas vezes. Amei rápido demais. Esqueci devagar. Perdi o encanto e sem querer o encontrei.

Fui tola demais. Muito esperta. Ganhei o jogo. Perdi o amor e o mundo quase acabou na minha cabeça. No outro dia, no mesmo lugar, estava o mundo igualzinho eu deixei. Cantei. Chorei. Dancei. Fiquei emburrada. Sai sem rumo.
Não fiz nada sobrenatural. Não salvei o mundo e não consegui me salvar. Vivi os erros. Comemorei os acertos. Escrevi no caderno. Marquei na linha da vida. Fui luz apagada. Borbulhas sem gás. E na imaginação fui até rima, poeta sem inspiração, mas isso meu caro foi tudo sonho numa noite sem verão.

Agora, quero apertar o play para o novo que está a minha porta e fazer o que ainda falta. Com sonhos novos. Doses de coragem sem saber de muita coisa, aliás, eu só sei que uma horinha dessas, eu chego a algum lugar. Roma, Paris, ou talvez apenas no meu quarto.

Feliz, sorte, coragem, fé ou sei lá o quê, para tudo que começa outra vez.

Ita Portugal

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Ita Portugal
Maranhense, pedagoga e insistente para que suas palavras tomem o rumo da vida e façam arruaças afora como sinal de esperança, alegria e amor.



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