Pra não esquecer de um grande amor

Ela gostava de chimarrão, disso eu me lembro bem. Podia passar horas a fio a admirá-la enquanto preparava e tomava aquilo que parecia ser tudo, menos água quente e erva-mate. É que tinha magia nessa cena, nessa e em todas as outras. Se ela tomava água, era mágica; quando prendia os cabelos, mágica; quando lia da Cunha Vargas baixinho na sua poltrona preferida ao lado da janela, BOOM: mágica e pirotecnia. Qualquer movimento dela era como um número feito por David Blaine (ainda se usa David Blaine como referência em ilusionismo?).

Uma vez perguntei: “casa comigo?” e ela disse sim. Dei um sorriso e comecei a imaginar como seria passar a vida toda assistindo aos números impecáveis dela. O amor é uma mágica maior que os truques com cartas de baralho, concluí.

Tempos depois, ela teve que ir. Chorei um rio, xinguei Deus e o mundo e amaldiçoei o chimarrão. Enchi os ouvidos dos meus amigos de lamentos e o meu violão de tristeza. Ouvi Cartola incontáveis vezes até o raiar do dia e escrevi poemas mais tristes que voltar de férias em plena segunda-feira. Conheci quase todos os garçons da cidade, paguei a saideira de muitos corações partidos e acordei em camas de todos os formatos e tamanhos, mas nenhuma delas tinha “mágica”.

Com o passar do tempo, a dor também foi embora, até ela se cansou das minhas ladainhas e partiu. Partiu de bicicleta de cestinha e tudo, descendo a ladeira enquanto tocava a sineta, acenando para os casais apaixonados que passeavam nas calçadas. É, até a minha dor se parece com ela.

Quando vou dormir, ainda é o rosto dela que vem acalmar a ansiedade de um dia corrido ou de uma reunião importante. O fim existe para fazer crescer o novo, o próximo dia, a próxima canção, o próximo abraço, mas existem coisas que simplesmente não se acabam, mesmo que queiramos. A finitude de certas coisas pode assustar, nos deixar vulneráveis, mas a infinitude de outras é capaz de chocar ainda mais – a memória é uma fábrica de infinito.

A vida segue como tem que ser. Ainda vago de bar em bar com amigos tagarelas de conduta duvidosa, sempre com um caderninho no bolso para quando me vier alguma lembrança de algo que ela e eu nunca vivemos. Como não sei desenhar, o que me resta são garranchos pra contar ao mundo todo o que ela nunca ouviu.

Já que seguir em frente é inevitável, eu me apaixonei. Vez após vez, me apaixonei, mas sempre por ela – mesmo que com outro nome ou cor de olhos. Ainda sou capaz de dar valor a alguém, de dividir sorriso e guarda-chuva caminhando de braços dados, de construir uma ponte entre duas vidas.  Uma vez perguntei se era pra sempre e ela disse que sim…

Talvez o pra sempre dela seja diferente do meu.

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Jocê Rodrigues
"É escritor e editor".



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