Carta de um ansioso ao seu amor

Amor, demorei algum tempo para escrever essa carta, pois estava tentando lutar contra minha ansiedade. Fingindo que ela não estava lá. Fingindo que tudo estava bem por fora quando por dentro meu mundo desmoronava como se devastado por um forte terremoto.

Muitas vezes você me viu sorrir enquanto eu chorava por dentro. Muitas vezes te dei meu silêncio quando minha alma gritava em alto e bom tom as coisas mais insanas. A ansiedade é assim, ela faz coisas pequenas parecerem muito maiores do que realmente são.

Então amor, quando eu vir te contar sobre um receio bobo, que para qualquer um pode parecer uma piada, me leve à sério. Pegue nas minhas mãos, se sente ao meu lado e procure me ouvir, pois certamente eu estou sofrendo muito, sofrendo a ponto de vir falar sobre esse sofrimento com você.

Quando eu te perguntar se há fundamento naquilo que não tem razão de ser, não ria ou se silencie achando que eu não preciso de uma resposta. Seja forte. Diga que os meus receios não têm fundamento, se não tiverem. Me abrace e me mostre que não faz sentido a gente se preocupar com coisas que podem nunca acontecer. Ajude a boa voz que há em mim vencer aquela outra que insiste em duvidar do melhor.

Me acolhe no seu peito e entende que não há graça em qualquer aflição, por mais boba que ela pareça. Me acolhe e me mostra o melhor. Desestrutura as aflições que nascem do inconsciente, por tanto tempo protelado. Eu sei que as respostas para meus medos, para meus temores, para minhas preocupações estão em mim, guardadas em alguma pequena gaveta.

Mas quantas gavetas há dentro da gente! Eu já comecei a abri-las, comecei a limpá-las, a analisar tudo que guardei e também aquilo que me foi dado, mas ainda não cheguei na gaveta que resguarda essa ansiedade inquietante e avassaladora.

Eu já entendi que nada é irrevogável, que estão nos meus bolsos as chaves para as portas as quais tranquei, que eu preciso seguir as pistas que me levam para dentro de mim, as pistas que explicam de onde vem aquilo que ainda não entendo bem. Mas às vezes, em um dia no qual estou mais frágil, pode acontecer da ansiedade chegar de mansinho e bagunçar minhas ideias jogando tudo para cima. Quebrando os vasos de flores que coloquei sobre as mesas.

A ansiedade atira ovos nas vidraças, quebra potes de açúcar e pisa sobre nossos sonhos. Ela degrada o bonito que construímos com esforço. Ela gosta de gritar que a gente não tem poder de vencer as dificuldades, que a gente não consegue.

E aí você pode chegar com um sorriso para o que seria um jantar romântico e encontrar, sem razões evidentes, a casa toda bagunçada. A ansiedade adora fazer a gente acreditar que as coisas são mais difíceis do que realmente são. Adora ver a gente achando pelo em ovo e sofrendo com um milhão de pensamentos que aparecem do nada e nos tomam de assalto, fazendo estardalhaço com a nossa calmaria.

Amor, quando ouvir palavras saltarem desenfreadas da minha boca, quando perceber que estou tremendo por dentro e por fora, me beija e cala suave a minha ansiedade com o silêncio do seu amor.

Sozinhos podemos muito, mas sozinhos não podemos tudo. Às vezes eu preciso colocar minha bússola ao lado da sua para saber se estou entendendo as coisas da forma como são. Às vezes eu preciso partilhar da sua segurança, preciso ver pelos seus olhos o sol depois da chuva a iluminar o melhor que posso ser.

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Vanelli Doratioto
Vanelli Doratioto é uma escritora paulista, amante de museus, livros e pinturas que se deixa encantar facilmente pelo que há de mais genuíno nas pessoas. Ela acredita que as palavras são mágicas, que através delas pode trazer pessoas, conceitos e lugares para bem pertinho do coração.



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