Tire os sapatos antes de entrar – Fabíola Simões

Desde menina aprendi hábitos como “bata antes de abrir” e “ore antes das refeições”. Cumpri esses rituais com exatidão, e sempre respeitei a importância do gesto.

Mais amadurecida, fui cuidando de minhas conquistas até adquirir o primeiro tapete para a sala. Era macio, felpudo, clarinho e aconchegante. Foi tempo então de aprender mais uma regrinha pessoal: “tire os sapatos antes de entrar” (no caso, pisar no tapete). Eu não sugeria o manual a quem viesse me visitar , mas seguia a recomendação comigo mesma, sentindo nos pés a textura daquele tapete reconfortante.

O tempo passou, e me lembrei do tapete algumas vezes, quando tive o coração pisado e doeu.

Doeu como solas de borracha pesadas afundando no solo frágil de minhas emoções. Doeu como o “toc toc” de tamancos enormes batucando cada centímetro da minha alma. Doeu como saltos agulha miseravelmente agudos capazes de afundarem o terreno arenoso da minha existência.

Eu desejava pantufas de algodão e meias alvejadas de carinho, e no entanto sentia meu peito vibrar no compasso brutal que eu permitia ser direcionado a mim.

Aos poucos fui descobrindo que se a gente quer que a pessoa tire os sapatos antes de entrar, a gente tem que falar. A gente tem que vencer as barreiras de constrangimento e se posicionar.

Ninguém, a não ser a gente mesmo, sabe a medida do que lhe faz bem ou faz mal. Só você sabe o que é capaz de lhe causar medo, alegria, dor, contentamento, frustração, esperança. E só você pode definir os limites da linha que divide o respeito do desrespeito por si mesmo.

Só você sabe do que é feito seu terreno e o quanto ele pode suportar.

A gente tem que aprender a se proteger. Esse é um aprendizado que leva tempo, mas nos torna muito mais fortes também.

Se proteger é aprender a pedir para tirarem os sapatos antes de entrar, e não permitir ser pisoteado por calçados pesados, pontiagudos ou muito encardidos.

É ser gentil consigo mesmo, entendendo que nossa alma é como um grande tapete branco felpudo, que merece ser acariciada por pés macios e pantufas carregadas de leveza.

Tem gente que se acostuma a ser pisado com brutalidade. E por almejarem o que é familiar, procuram quem continue lhe pisando sem cuidado nem amor. Recusam o conforto da novidade, para se cercarem da dor conhecida.

Que o amor chegue de mansinho, e peça licença antes de se aproximar.

Que traga alento, e que a gente aprenda a agradecer aos céus quando se apaixonar.

Que seja delicado, e nos ensine a importância de se respeitar.

Que seja bem vindo, mas que tire os sapatos antes de entrar…

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Fabíola Simões
Nasceu no sul de Minas, onde cresceu e aprendeu a se conhecer através da escrita. Formada em Odontologia, atualmente vive em Campinas com o marido e o filho. Dentista, mãe e também blogueira, divide seu tempo entre trabalhar num Centro de Saúde, andar de skate com Bernardo, tomar vinho com Luiz, bater papo com sua mãe e, entre um café e outro, escrever no blog. Em 2015 publicou seu primeiro livro: "A Soma de todos os Afetos" e se prepara para novos desafios. O que vem por aí? Descubra favoritando o blog e seguindo nas outras redes sociais.



6 COMENTÁRIOS

  1. Me identifico muito com seus textos, por serem completos demais, onde minhas idéias se assimilam muito com as suas e por amar muito e também escrever, onde através disso passei a me conhecer muito e, isso me fez e me faz muito satisfeita na vida e com os meus.

    Desejo sucesso a você sempre!
    😀

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