A infelicidade consentida

Um defeito que nos acompanha pela vida é essa necessidade de mensuração das vivências. Usamos fita métrica até pra estipular quanto vai durar um sentimento.

Não sabemos mais sentir, temos receio do que dura. Quando nos deparamos com uma situação difícil, apertamos a alavanca do passado pra dizer que era melhor. Mais isso, mais aquilo.

Vivemos nessa ponte de lamúrias, onde o passado só reflete o quanto estamos paralisados. Usamos o hábito da fuga retrô pra apontar o quanto éramos felizes, o quanto éramos dispostos, o quanto éramos festivos, e o contraponto com o presente só deixa claro o quanto definhamos e perdemos a essência.

Vivemos somente pro tanto de emoção que conseguimos lembrar. O que passar disso é cálculo errado. Exagero.

Não recebemos o que transborda porque nos acostumamos com esse prato raso de boas ações calculadas e sentimentos travestidos de amor. Às vezes, um amor se vai porque não sabemos reconhecê-lo. Não foi a abordagem que mudou, nós é que passamos a usar tapumes no lugar dos olhos pra evitar a simplicidade do que é profundo.

Não temos armas, mas temos dedos apontados, que é a mesma coisa. Ferimos o outro enquanto ele balbucia pra iniciar uma carícia verbal. Nos distanciamos pra evitar o toque. Em nome da nossa estabilidade emocional, preferimos não perder tempo com “sentimentalismos”. No fundo, não queremos fazer nada que não esteja na pauta diária da normalidade. Nada que nos faça vibrar por dentro. Preferimos a comodidade do “eu era feliz e não sabia”, pra continuarmos infelizes sabendo.

Pra continuarmos mergulhados na inércia do passado, na pseudoalegria que não contamina o presente. Nas lágrimas saudosistas de um sentimento que só depois de muitos anos foi promovido ao rol dos alegrinhos, pois o tempo tem mania de retirar o peso dos acontecimentos e enfeitá-los.

Logo esse “presente” terá/será passado, e certamente, você irá procurar os adjetivos mais interessantes, os melhores adornos pra torná-lo atraente. E vai fazer a mesma coisa, repetir “que era feliz sem saber”, quando jamais resvalou em alegria alguma. Apenas transferiu a ilusão de uma época pra outra sem jamais perder a mania de se enganar.

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Ester Chaves
"Seu traço escrito é atual, jovial, mas emplastrado de técnica literária. Seus temas são viscerais, nos tomam pelo nó na garganta e nos transversam de cima abaixo e por todos os lados, enquanto ela domina os ímpetos caudalosos do fluxo de consciência. Sua percepção microscópica da psique humana nos tira o fôlego.." Rândyna Cunha



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