O que salta aos olhos

As manhãs de segunda-feira sempre foram um problema pra mim. E pro resto do mundo, suponho. Mas naquela, em especial, eu me sentia pior. Estava triste, desanimada e ainda sofria com as dores daquela bendita infecção urinária.  Além do desânimo e do incômodo com a dor, sentia-me culpada, afinal, acabava de voltar de uma viagem incrível e vivido coisas maravilhosas.  Deveria estar grata e feliz pela experiência, mas a realidade é que sentia exatamente o oposto.  Foi então que li a seguinte frase de Rubem Alves, postada por uma amiga no Facebook, o que me causou ainda mais irritação:

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“Ahh, que ótimo!”, pensei. “Além de tudo, estou feia”.

E foi assim, triste, incomodada com a dor, irritada e achando-me feia, que saí para caminhar no parque perto da minha casa. Odiava me sentir assim justamente por estar sempre lendo e me dedicando a ser uma pessoa mais leve, mais otimista e, especialmente, mais agradecida. No fundo, sabia que motivos de sobra eu tinha para estar bem e feliz. E se eu estava ciente de que eles existiam, só me faltava então reconhecê-los, filosofei.

Comecei, então, a listar mentalmente, um a um, todos os motivos pelos quais eu deveria ser grata. Comecei agradecendo pelo fato de meu incômodo físico ser algo tão pequeno e fácil de se resolver comparado a tantas outras mazelas do mundo. E me lembrei de que as coisas mais simples, as quais geralmente temos como garantidas, são as que certamente mais merecem nosso apreço e gratidão, como o simples fato de ter pernas e um corpo saudável para poder caminhar até onde eu bem entendesse. E eu tinha pernas e um corpo perfeito que haviam me carregado pelos 800 km no Caminho de Santiago no mês anterior. Agradeci pela minha cama quentinha naquela manhã fria, meu apartamento ensolarado, meu farto café da manhã. Agradeci pela maravilhosa viagem de cinco meses pelo mundo, pelas pessoas incríveis que conheci e pelos lugares maravilhosos em que estive. Agradeci pela beleza daquele parque tão perto da minha casa e pelas tantas cores presentes em minha vida. Viajando por países mais pobres, descobri que a variedade de cores do meu mundo era, em muitos casos, muito maior que a de tantas outras pessoas. Agradeci pelo meu trabalho como professora que me permitia, de forma prazerosa e gratificante, tanto ensinar como aprender. Lembrei-me de agradecer, simplesmente, pelo fato de tudo estar bem.

Foram muitas as coisas, grandes e pequenas, pelas quais agradeci, mas seria entediante, se é que já não o foi, listá-las todas aqui. O fato é que o simples reconhecer do que havia de bom em minha vida fez com que eu me sentisse completamente diferente. Percebi que era impossível estar grata e triste ao mesmo tempo. E o resultado foi que, em menos de uma hora, eu não havia apenas deixado de me sentir triste e irritada, como também já não tinha mais nenhuma dor física. Estava feliz, me sentindo afortunada e, arrisco dizer, radiante.

Isso, por si só, já poderia ser considerado meu pequeno milagre do dia, mas eis que, no caminho de volta pra casa, uma jovem mulher alta caminhava na direção contrária à minha e desde longe mantinha seus olhos fixos em mim. Cheguei a sentir uma certa apreensão e incômodo com aquele olhar tão inesperado. Mas, ela, de maneira doce e suave, parou à minha frente, olhou bem dentro dos meus olhos e, inusitadamente, disse: “Moça, como você é linda!”.

Convenhamos, não sou o tipo de pessoa cuja beleza é digna de elogios gratuitos no meio da rua. Por isso, até hoje, mantenho-me convencida de que ela não se referia aos meus olhos sem rímel, meu rabo de cavalo já meio desfeito e minha calça legging preta desbotada. Rubem Alves estava certo. Naquele momento, eu devia estar realmente bela. Mas, não, não pela cara…

… Pela exuberância do meu mundo interior.

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Imagem de capa: Caminho de Santiago de Compostela – Junho/2014

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Lysiane Fonseca
Formou-se em Publicidade e Propaganda, mas é professora de coração. É também praticante de Yoga e meditação - embora com muito menos frequência do que gostaria - e estudiosa de assuntos ligados ao desenvolvimento pessoal e espiritual. Tão apaixonada pelo povo e cultura orientais que, a cada chance de viagem, dá um pulo do lado de lá.



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