O dia em que recebi o “Prêmio Nobel da paternidade”

Meu filho, que já um jovem adulto, entrou na sala, parou na minha frente, me olhou com muita simpatia e perguntou:

<< Pai, porque você não trabalha com crianças? >>

Surpreso com essa indagação, perguntei-lhe porque ele queria saber isso. Ele respondeu:

<< Porque você sabe lidar bem com crianças! >>

<< E por que você acha que sei lidar bem com crianças? >>, perguntei.

Ele me olhou, apontou para si mesmo e disse:

<< Olhe para mim, pai. Você fez tudo certo! >>, indo embora em seguida sorrindo.

Confesso que me emocionei com o que escutei. Mais que isso: me senti extremamente satisfeito, feliz, como se acabasse de receber o “Prêmio Nobel da paternidade”. E acredito que é esse sentimento de satisfação e felicidade que qualquer pai e qualquer mãe gostaria de sentir em relação aos filhos.

Se ele hoje está bem, sei que isso não é mérito unicamente meu. É mérito também de sua mãe, além de outros adultos que fizeram e fazem parte de sua vida, que serviram e servem de exemplo para ele, e é, principalmente, mérito dele mesmo. E sei que não fiz tudo certo, como ele supôs. Seguramente errei aqui e ali, o que é perfeitamente normal, já que sou humano e, como tal, imperfeito, e já que todos nós, pais e mães, temos nossas limitações e nem sempre acertamos na criação e na educação de nossos filhos. Creio, entretanto, que o que conta no final é o resultado e, se ele é positivo, isso é sinal de que, mesmo que erros tenham sido feitos, os acertos prevaleceram.

Já havia escutado de outros adultos, inclusive de sua mãe, que eu seria um bom pai, mas isso não é a mesma coisa que escutar isso do próprio filho. E desejo de coração a todos pais e mães que passem pela mesma experiência: a de escutar dos filhos que estão satisfeitos com a criação que receberam.

Mas, infelizmente, sei que isso nem sempre é assim. Vejo muitas famílias, nas quais o relacionamento de filhos adultos com os pais não é nada harmônico, com feridas abertas e muita coisa mal resolvida. Vejo filhos que não falam com os pais e pais que não falam com os filhos, vejo mágoas e ressentimentos, muito rancor e sofrimento. E vejo muitos jovens adultos carregando consigo as sequelas de uma criação que falhou em sua principal meta, que era a de preparar esses jovens para uma vida autônoma, equilibrada e, dentro do possível, feliz. Vejo filhos e filhas marcados para toda a vida, perdidos, carentes, duvidosos de si mesmos, que muitas vezes trocam a casa dos pais pelo divã de um psicoterapeuta.

Vejo também o sofrimento de pais e mães, decepcionados com a cria, penando por causa daquilo que definem como ingratidão dos filhos, por eles não valorizarem tudo aquilo que receberam, pela distância que se instalou no relacionamento, pela falta de contato e talvez até pela falta de respeito que esses filhos não teriam pelos genitores. E vejo as acusações mútuas, brigas, choros e todo um fardo carregado por ambos os lados.

Tudo isso é complexo e nem sempre é possível atribuir claramente uma “culpa” pelos conflitos aos pais ou aos filhos. Por um lado, foram os pais os responsáveis pela criação das crianças e, se ela não deu certo, esses pais não podem negar que falharam. Por outro lado, também os filhos, uma vez adultos, carregam sua parcela de responsabilidade, já que podem contribuir para esclarecer certos conflitos, o que seria justo, mas também inteligente, pois isso ajudaria a eles mesmos a resolverem suas vidas, a desfazer certos laços e nós e a finalmente poderem levar uma vida mais leve e feliz.

Entretanto, como todos os problemas, também o mal relacionamento entre pais e filhos tem sua origem, e encontramos essa origem normalmente nos pais, já que os desvios na criação dos filhos começam cedo, quando os  filhos ainda eram crianças e qualquer pessoa sensata irá concordar que não podemos responsabilizar crianças por coisas que andaram mal em sua criação.

Imagino que alguns pais não concordarão. Escrevi uma vez um outro texto sobre castigos exagerados na infância e sobre a responsabilidade dos pais e houve gente protestando, reclamando dos filhos, os culpando, os chamando de “crianças tiranas” e coisas parecidas, mas, aqui peço que me desculpem a franqueza, tal tipo de acusação é injusta e é uma tentativa imatura de transferir às crianças a responsabilidade por nossos erros, por nossas limitações, por nossas incapacidades e por nossos fracassos como pais, educadores e orientadores.

Quando digo isso, não o faço julgando. Como já dito acima, todos os pais erram, também eu, também você. E criar filhos é uma tarefa difícil, principalmente quando nós mesmos não fomos tão bem criados, quando nos falta uma preparação através do exemplo dentro da própria família. Vejo pais que sofreram quando crianças e que tentam fazer melhor do que seus pais fizeram, mas isso não é fácil, já que muita coisa que sofremos (ou não aprendemos!) terminam sendo passadas a nossos filhos de uma forma sutil, inconsciente. Evitar esses erros não é, portanto, tarefa fácil, em alguns casos até impossível.

Sim, todos nós erramos e nossos erros não podem ser evitados completamente, mas podemos minimizá-los de uma forma que os danos que poderiam ser causados por eles sejam amenizados ou mesmo anulados através dos acertos. E o primeiro passo para isso seria aceitar que erramos, que somos imperfeitos como seres humanos e como pais, e que somos os principais responsáveis pelos desvios e fracassos na criação de nossos filhos e não eles.

Vejamos, por exemplo, os pais que sofrem pela ingratidão demonstrada pelos filhos. Dá para perceber que aqui o problema em si é uma contradição? Pais e mães passam a vida fazendo tudo pelos filhos, cuidando, tratando as doenças, trocando fraldas, se preocupando com as notas na escola, se desesperando com a rebeldia na puberdade, enfim, não medindo esforços para que esses pequenos seres cresçam bem, que levem a melhor vida possível, que nada lhes falte… E fazem isso por amarem seus filhos, que é o que a maior parte dos pais supõe. Mas, se nos damos dessa forma POR AMOR, como podemos esperar então gratidão ou qualquer forma de retorno? E, ainda menos compreensível, é quando esperamos algum retorno material, como presentes ou ajuda financeira. Isso não é contraditório? Se queremos retorno, teremos dado realmente por amor?

Como pais, recebemos um dos mais belos presentes e uma das mais importantes tarefas que um ser humano pode receber: um ser, pequeno e indefeso, para cuidarmos e criarmos, preparando-o para a vida, para que cresça, torne-se forte e independente e siga seu próprio caminho. Penso que um pai ou uma mãe que percebe isso já estará muito mais que satisfeito ao ver seus filhos adultos caminhando com as próprias pernas. Pais e mães que entenderam sua missão e o quanto ela é difícil e essencial não esperam mais do que isso. Ver os filhos bem deveria ser toda a recompensa que esperamos. Mas isso nem sempre é visto assim. Muitos pais querem muito mais e, mesmo que não tenham essa intenção, terminam provocando desvios na criação e “envenenando” o relacionamento com os filhos por causa de expectativas que os filhos talvez nem possam (e nem deveriam) atender.

Cada um de nós tem sua forma de ver a vida e isso é bom. Somos indivíduos e o caminho de cada um é, portanto, singular. Mas o mesmo vale para nossos filhos. Problemas surgem a partir do momento em que começamos a querer transformar nossas expectativas em caminho para nossos filhos, desrespeitando as necessidades deles mesmos. Não temos o direito de exigir que nossos filhos sigam aquele caminho que nós escolhemos para eles, que aprendam a profissão que nós achamos interessante (ou lucrativa!), que se casem com quem achamos com quem devem casar, que vivam da forma que definimos como a forma certa de se viver.

Toco nesse ponto das expectativas porque acredito que elas sejam uma importante causa dos conflitos que podem existir mais tarde entre filhos adultos com seus pais. Por isso é importante que nos policiemos e tenhamos cuidado com o que esperamos de nossos filhos, tendo consciência de que nossas expectativas podem representar muitas coisas (nossos desejos, nossas vaidades, nossas carências, nosso egoísmo…), mas que elas pouco ou nada têm a ver com amor. Nossas expectativas são algo nosso e não de nossos filhos! Não há nada demais em ter expectativas. Isso é algo perfeitamente normal. O problema é quando começamos a acreditar que nossos filhos têm que satisfazê-las. O resultado aqui seria pais decepcionados e infelizes pelos filhos terem seguido outro caminho ou filhos decepcionados e infelizes por terem seguido um caminho escolhido pelos pais, mas que não era o que eles realmente gostariam de seguir.

Devemos sim dar a nossos filhos oportunidades para conhecer e aprender coisas novas, colecionando as ferramentas que precisarão mais tarde para viver a própria vida, devemos mostrar-lhe os diversos caminhos possíveis, mas, no final das contas, temos que aceitar que essas almas não nos pertencem e que não têm qualquer obrigação de se tornar aquilo que esperamos ou de seguir o caminho que desejamos para elas e muito menos a obrigação de ficar próximas a nós, mesmo depois de adultas, retribuindo e agradecendo o quer que seja.

É claro que é algo confortante quando nossos filhos ficam perto (pelo menos emocionalmente), agradecem e reconhecem o que fizemos por eles e até retribuem de alguma forma, mas isso só é realmente saudável e gratificante quando eles o fazem por querer, quando eles decidem isso livremente, quando isso ocorre como fruto do bom relacionamento que tivemos com eles desde o início – com “início” não me refiro ao nascimento, pois para mim nosso relacionamento com nossos filhos começa bem antes, no momento em que a vida é gerada (quando isso ocorre sem ser planejado – a notícia da gravidez é recebida com alegria pelos pais ou com medo, tristeza, raiva ou desespero?) ou no momento em que decidimos ser pai/mãe (já que o motivo da decisão já é importantíssimo para a qualidade do relacionamento – não se pode falar de uma relação de respeito com esse novo ser quando se resolve ter um filho, por exemplo, para salvar um casamento fracassado, quando a criança é instrumentalizada para isso). Se a qualidade de nosso relacionamento com nossos filhos adultos não é boa, precisamos reconhecer que isso é fruto da forma como os criamos, por mais que isso doa.

A receita para um bom relacionamento com os filhos…

Existe uma receita para um bom relacionamento com os filhos? Bom, pessoalmente não acho que ela exista. Seria estranho acreditar que somos todos indivíduos, seres singulares, inclusive nossos filhos, e crer ao mesmo tempo que existiria uma receita válida para todas as famílias. Mas penso que há um “ingrediente” básico para o bom funcionamento de qualquer relacionamento, também entre pais e filhos: o respeito. Respeite seus filhos desde o início e você verá que isso será uma grande contribuição para uma boa relação com eles mais tarde. E esse respeito vale para toda e qualquer situação, levando-os a sério, pedindo desculpas e assumindo erros ao cometê-los, falando e não gritando com eles, jamais usando de agressão física ou psíquica contra esses seres indefesos, abrindo mão de qualquer forma de chantagem emocional, não os manipulando ou instrumentalizando para o que quer que seja e nunca os responsabilizando por sua sorte ou por seu azar na vida, não os usando para satisfazer suas vaidades, suas carências e aceitando que seus filhos não lhe pertencem, que eles têm o direito de ser e se tornar o que quiserem, até mesmo de seguir o caminho “errado” e de sofrer, entendendo que as coisas que você faz por eles são frutos de seu amor de pai ou mãe, que quer dar sem nada esperar e que, portanto, eles nada lhe devem. Não, não há uma receita, mas creio que assimilar esse respeito pela individualidade dos filhos já seria um bom começo para talvez um dia escutar dos filhos que eles estão satisfeitos com a criação que receberam e ter o sentimento de ter recebido o “Prêmio Nobel” como pai ou mãe ?

Imagem de capa: Adrian Sommeling

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Gustl Rosenkranz
Blogueiro brasileiro residente em Berlim.



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