O amor te espera atrás de uma xícara de café

Era para eu te conhecer em uma cafeteria. Naquela que fica perto da livraria. Lá seria o nosso primeiro encontro. Lá trocaríamos olhares. Lá descobriríamos que estávamos a ler o mesmo livro. Lá você se levantaria para vir junto de mim e nós nos amaríamos desde o primeiro oi.

Descobriríamos que ambos tínhamos adoração pela história das pessoas e que um dia nos prometemos conhecer a bela cidade de Como na Itália. Nessa cafeteria, nos desvendaríamos, nos conquistaríamos e marcaríamos de nos ver todos os dias em uma mesa próxima da porta de entrada.

Naquela cafeteria bucólica, repleta de almas solitárias, acolhidas pelo clima aconchegante do local, você me daria o livro “Os Catadores de Conchas” e eu te presentearia com um diário em branco para que escrevesse com carinho a nossa história.

E você, amante das palavras, me leria do começo ao fim e me transcreveria com imenso carinho naquelas páginas em branco. Deitaria sobre mim versos, frases e arranjos e eu te daria o mundo pelos olhos meus e juntos, em abraços, beijos e anseios construiríamos uma vida.

Soprando nossas xícaras de cappuccino fumegante conversaríamos sobre tudo que aprendemos, sobre tudo que gostávamos, sobre tudo que nos lembrasse o amor.

Então colocaríamos a língua na bebida, deixando o calor do copo se mesclar com o êxtase do amor em nós.

Naquela cafeteria, com luz difusa e quadros tortos, você alisaria meus cabelos rebeldes e eu passaria os dedos pelos seus lábios tomando deles o restinho de espuma que o guardanapo esqueceu de levar.

Naquele lugar que a vida reservou para nós você descobriria que a solidão em “Automat” de Hopper não me apetecia tanto quanto “O Beijo” de Klimt.

Sentados em cadeiras Béranger, sonharíamos as viagens que faríamos e os filhos que teríamos. Eu terminaria minha faculdade de design e abriria minha própria loja e você publicaria seus livros e juntos faríamos um mundo melhor.

Naquela cafeteria você me encontraria, naquela cafeteria me encantaria, naquela cafeteria você leria minha admiração e meu largo amor por você. Naquela cafeteria, com um cappuccino nas mãos, nos daríamos a felicidade de conhecer um ao outro.

Mas houve um dia que você decidiu parar com as pequenas felicidades cotidianas. Houve um dia no qual a razão lhe disse que se economizasse no cafezinho poderia no futuro, depois de décadas, comprar com o dinheiro desse pequeno deleite diário, um carro, uma casa ou fazer uma viagem memorável. Então quando eu pus os pés dentro daquele ambiente tão nostálgico pela primeira vez, você já não estava mais.

Você tinha decidido justamente no dia anterior que mudaria seus hábitos. E foi assim que a razão se colocou à frente de um romance delicado e verdadeiro. Foi assim que um cálculo genérico, de algum economista pragmático, decretou que um montante minúsculo podia valer mais que o amor. E eu ao pensar nessa razão não pude deixar de lembrar dos “quase amores” que morrem por um mau conselho, por uma decisão precipitada ou por uma orientação insensata.

Se eu pudesse te pedir algo, pediria para não cortar o cafezinho. Não cortar da vida as pequenas felicidades diárias. As alegrias inocentes que fazem nosso cotidiano funcionar. Se eu pudesse te dizer algo, te diria que a razão não é uma boa conselheira. Que ela vê em filhos, gastos. Vê em amigos, inimigos das finanças. Vê a caridade como algum tipo de profanação e enxerga a vida como uma imensa planilha na qual o trabalho e o dinheiro vêm em primeiro lugar.

Existe tanto amor escondido no mundo, existem tantas boas possibilidades não planejadas em nossos caminhos. Existe tanto que um cafezinho pode nos propiciar indiretamente. A vida é feita de inúmeros acasos, nos mesmos somos um. Se nosso trisavô não tivesse conhecido nossa trisavó, em um dia único, não existiríamos. A vida é surpresa, expectativa e amor.

E eu ainda estou sentada perto da imensa janela frontal daquela cafeteria tão acolhedora. Eu ainda estou sonhando com um amor que não se deixe envergar pela razão das coisas. Eu ainda estou molhando a língua no cappuccino fumegante, esperando o dia em que a emoção lhe grite alto e você apareça feliz para um cafezinho cheio de uma alegria merecida e para um novo e inesquecível amor.

OBS: Amo a pronúncia do meu nome na sua boca.

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Vanelli Doratioto
Vanelli Doratioto é uma escritora paulista, amante de museus, livros e pinturas que se deixa encantar facilmente pelo que há de mais genuíno nas pessoas. Ela acredita que as palavras são mágicas, que através delas pode trazer pessoas, conceitos e lugares para bem pertinho do coração.



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