A beleza de ser livre

Queria ser livre como um passarinho! Voar alto no mundo, cortando o céu com meu encanto, batendo minhas asas com louvor.

Queria poder sentir a alegria do vento matreiro tocando-me a face e ter entre minhas penas o carinho das nuvens. Queria poder piar para encher de vida a vida daqueles que, do alto, eram como pontos pequenininhos nas trilhas do tempo.

Um dia eu pedi mansinho: Vida, por favor, faça-me passarinho! E diferente de Kafka que acordou com antenas e casca dura, eu despertei na aurora do dia com uma vontade louca de cantar a beleza do sol.

Eu tinha penas, bico e pernas delicadas e morava em um ninho. Então eu desejei conhecer o entorno que me rodeava. Bati as asas com delicadeza e passei a voar com graça e simpatia. Quando a sede me vinha eu bebia a água das calhas dos telhados e me banhava nas fontes dos parques. Eu brincava de jogar areia pro ar e rolava no chão até cansar.

Foi então que, com o sol quase sumindo, eu quis fazer diferente e decidi voltar andando até o ninho. Quis dizer para mim que eu tinha outra opção que não voar. E pus-me a dar pulinhos e mais pulinhos, caminhando devagarzinho.

Não demorou muito para que eu começasse a me cansar. Logo minhas asas passaram a ignorar minha vontade humana e se abriram ensaiando o princípio de um voo. Eu estava indo contra a minha natureza coletiva e instintiva de pássaro. A alma humana que me habitava queria poder escolher entre andar e voar. Queria ousar, fazer diferente, contudo o pássaro em mim era incapaz de transpor a natureza que o guiava. Ele tinha um espírito coletivo de fazer o que tinha que fazer.

Então eu quis poder escolher. Desejei ter a chance de subverter a minha natureza e fazer diferente. Desejei me pintar de roxo se vontade eu tivesse. Desejei poder fazer sem explicar. Desejei sair na hora que eu quisesse, sem ficar presa aos horários do sol ou da lua. Desejei arriscar para acertar ou errar. Eu queria poder decidir por mim. Queria ter nas mãos a possibilidade de me moldar de forma única, independente dos meus instintos.

Queria ser livre como um humano! Andar rápido pelo mundo, cortando os caminhos com minha capacidade de escolha. Animada com minhas ideias mais criativas.


Queria poder sentir a alegria do vento me tocando o corpo se eu resolvesse pular de bungee jumping. Queria sentir o toque da pessoa amada não só para o sexo, mas também para a companhia. Queria poder declamar minhas poesias prediletas e com elas animar a alma dos passantes das calçadas do tempo.

Então um dia eu pedi mansinho: Vida, por favor, faça-me humana! E diferente de Kafka que acordou com antenas e casca dura, eu despertei nua, em carne e osso. Eu era um ser cheio de vontades, de loucuras, de ânsias e desejos. Eu era um ser humano e o mundo cabia direitinho dentro das minhas vontades. Fossem elas acertadas ou equivocadas, eu podia vencer a natureza instintiva que me habitava e escolher.

E naquele dia, naquele feliz dia, a minha primeira escolha seria a do pé com o qual eu tocaria carinhosamente o chão, e a minha vontade, fosse lá qual fosse, declararia mansa e serena a minha imensa gratidão por eu ser eu mesma.

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Vanelli Doratioto
Vanelli Doratioto é uma escritora paulista, amante de museus, livros e pinturas que se deixa encantar facilmente pelo que há de mais genuíno nas pessoas. Ela acredita que as palavras são mágicas, que através delas pode trazer pessoas, conceitos e lugares para bem pertinho do coração.



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