Para vestir o amor

Numa convulsão de pensamentos, enfio a mão dentro do grande baú. Fico de peito aberto, caçando um sentimento que me caia bem. Quero vesti-lo como roupa de festa, experimentá-lo ao espelho como adorno de cabelo. “Tem amor?” “Tenho”. Respondo e me assusto. É grande, mas me cabe. Fico à vontade dentro dele, mas com o tempo vou engordando de outros sentimentos menos essenciais, e o amor… Ah! Fica apertado, dolorindo o peito feito colarinho machucando o pescoço.

Quero extinguir as mesquinharias para poder ficar bem feliz dentro do amor. Para senti-lo em sua essência, usá-lo durante anos e correr para ele sempre que sentir saudade. Às vezes, consigo arrancar com força o que tira a vez do amor. Meto a mão no peito e jogo fora tudo que é dor. O que mais encontro é mágoa, resto de algo que nunca foi amor fica ali depositado no almoxarifado da desculpa do “depois eu resolvo”, atrapalhando a entrada como “lixo de porta”.

Sei que eu não devia dizer, mas digo sempre: “estou por um fio”. É o modo de proteger a mim mesma. Vivo um desafio que dura enquanto eu durar. A dor me testa, a provo a colheradas, sem fazer caretas, já conheço de longa data…

A faço imaginar que já perdeu a graça, para que ela pare de me experimentar. Mas ainda a sinto doer. Choro baixo que é para não acordar meu silêncio. É nele que busco a indumentária certa para sair de manhã resistindo a tudo.

Tenho usado muito a capa de chuva. Você sabe o que é? É isso mesmo… capa de chuva é solidão, mas não protege. Está sempre furada, respingando mágoas e vazando queixas. Nos põe no cordão de isolamento e a gente fica ali, parado, esperando a chuva que não é fina, passar. E numa hora dessa, o amor já vai longe, já pegou a estrada e o baú está cheio de porcarias. Roupa que nem é de festa está lá para lhe engordar diante do espelho.

Tem o que aí dentro de você? Se tiver amor, mantenha o ritmo. Você está protegido. Nem precisa de capa de chuva para sair de casa e aguentar o frio.

E eu… Ah! Eu…eu vou esvaziar meu baú, quem sabe ficar nua ao espelho e ir me vestindo aos poucos, assim posso escolher uma peça de cada vez. E aí, de manhã, posso sair, pegar a estrada, revigorada, sem capa de chuva, mostrando as curvas que o amor lapidou…

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Ester Chaves
"Seu traço escrito é atual, jovial, mas emplastrado de técnica literária. Seus temas são viscerais, nos tomam pelo nó na garganta e nos transversam de cima abaixo e por todos os lados, enquanto ela domina os ímpetos caudalosos do fluxo de consciência. Sua percepção microscópica da psique humana nos tira o fôlego.." Rândyna Cunha



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