O bem que faz guardar o melhor da vida

Com quase cem anos ela, já tataravó, parecia um anjo. Tinha o cabelo branco como o algodão e os olhos mais carinhosos que já conheci. Não lhe cabia na boca qualquer ai ou ressentimento. Ela tinha a alma leve de quem amara a vida.

Ela sempre que podia me pegava pela mão e me levava, em pensamento, ao passado, às fazendas do interior de São Paulo com suas lindas despensas e copas repletas de doces imersos em saborosas caldas.

Ela me fazia viajar para outro tempo com suas histórias. Me fazia, vislumbrar em pensamento, uma fazenda florida, um frondoso casarão e uma capela repleta de flores colhidas nos campos. Então era eu a ver, em imaginação, carroças e remansos e ela pequena a comer bijus.

E comigo, sentada aos seus pés, ela me ensinava, ao contar e recontar suas vivências, que até da tristeza, com carinho, é possível extrair o melhor. Ela não recordava o pesar dos anos, agradecia-os por terem sido seus.

Por vezes alguma voz impaciente lhe ditava que parasse de me contar as mesmas passagens. Mas, eu ansiava por elas, ansiava por cada palavra sua. Por cada pedacinho do tempo que repartia comigo.

E eu, em tão terna companhia, perguntava-lhe do amor. Perguntava-lhe de como fora o tempo de casada. E ela dizia-me: vinte e cinco anos, vinte e cinco dias, minha querida.

Ela ensinou-me que precisamos separar o melhor e carregá-lo protegido em nós, como um bebê envolto em uma manta quente. Ela ensinou-me que lá no fim sobrará bem pouco espaço em nós, que o tempo leva quase tudo, mas que ainda assim podemos escolher o que guardar: o rancor ou a gratidão.

Nunca li nas palavras dela qualquer resquício de mágoa, nunca li em seus olhos a angústia. Ela decidiu abraçar o melhor. Olhar a vida com seus olhos cor de mel, adoçando com eles tudo o que tocava.

E quando ela se voltava para mim, alisava-me os cabelos e perguntava-me dos meus entes. Perguntava-me se eles me enxergavam assim como ela.

Ninguém poderia ver-me com tão doces olhos, não com a visão tão bem treinada para o melhor. Sua vida foi um conforto e ela em sua candura, mostrou-me ter a força de um leão. Mostrou-me como abraçar o tempo e tecê-lo carinhoso. Como desafiar a vida e seus pareceres fatalistas com simplicidade e carinho.

Quando os médicos lhe disseram que eram poucas as chances de se recuperar, ela abraçou uma parcela diminuta de otimismo e se refez plena, sem fatalismos, caminhando de um lado para o outro, em passos lentos, mas firmes.

Aquela doce mulher, levou-me terna ao passado, mas ensinou-me no presente que somos nós que escolhemos nossos caminhos. Que quase sempre nos cabe, e não à vida, a decisão pelo que virá. E assim, soberana em entendimento e simplicidade ela resolveu partir, deixando-me aqui a embalar o melhor em diminutas trouxas.

Deixou-me aqui ocupada em guardar as pequenas parcelas de felicidade em mim, para que amanhã, quando o corpo ressecar e a voz falhar, eu possa me valer para nutrir o mundo com a minha mais doce parcela. Para que amanhã eu possa repartir carinhosa com os meus os bons pedaços da vida, sem misérias, sem lástimas, sem nada que não seja feito do melhor das coisas pelas quais passei.

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Vanelli Doratioto
Vanelli Doratioto é uma escritora paulista, amante de museus, livros e pinturas que se deixa encantar facilmente pelo que há de mais genuíno nas pessoas. Ela acredita que as palavras são mágicas, que através delas pode trazer pessoas, conceitos e lugares para bem pertinho do coração.



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