Manual da esperança

Quando você deseja muito uma coisa, você sabe responder qualquer questionamento a respeito dela. Se for um objeto, você recita o nome do primeiro fabricante, o ano de lançamento no mercado, as cores disponíveis e todas as informações técnicas do produto. Você é quase um sócio da empresa, um garoto propaganda sem contrato.
Quando você deseja muito uma coisa, você se transforma na coisa. Você vive aquilo. Aquilo vira o seu assunto de eternidade. Você vive com esse querer suspenso, como se fosse um membro do corpo; um braço, uma perna, uma mão extra acenando para o infinito.
É quando você aprende a esperar.
É quando você aprende que a espera mora no mesmo kit do desejo.
É quando você aprende que posse é primeiro não ter.
Posse é ensaiar a busca. Sofrer os lapsos da espera.
É quando você aprende a abrir mão.
É quando você fica humilde.
Não ter o que se deseja é o treino mais elevado de humildade.
É o cuidado sem a posse. A criança sem o brinquedo predileto.
É o desejo puro procurando alimento na espera.
A espera é a isca que movimenta o sonho.
A paciência é a garantia da isca enquanto o querer sustenta o anzol.
Quando você deseja muito uma coisa, você se torna tão pequeno. 
Minúsculo. Quase invisível. É quando você se despe na frente do seu ego. 
Esse é o melhor “strip tease” que existe.
É quando você mostra toda a sua fragilidade. Expõe todas as suas feridas. 
E ainda assim, é capaz de rir das mancadas, dos tombos, dos fracassos.
Depois você chora sozinho, lava os traumas nas lágrimas, 
dissolve as angústias nos soluços.
Você se torna tão reduzido… um playmobil de estante e um biscuit de geladeira seriam gigantes perto de você.
Mas é na descida que mora a sua força. Você só aprenderá a voar testando as asas no solo, arrastando os pés machucados no chão. 
Quando você deseja muito uma coisa, você se torna incansável, imbatível. Aprende a anular alguns sentidos. Não escuta a torcida do agouro. Fica cego para as placas negativas que os invejosos instalam em seu caminho. 
Despreza os conselhos de desistência. Abandona o círculo das falsas amizades. Treina o voo, secretamente. Segue o seu próprio manual da esperança. Rabisca novas estratégias. Faz manutenção nas asas e recomeça.

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Ester Chaves
"Seu traço escrito é atual, jovial, mas emplastrado de técnica literária. Seus temas são viscerais, nos tomam pelo nó na garganta e nos transversam de cima abaixo e por todos os lados, enquanto ela domina os ímpetos caudalosos do fluxo de consciência. Sua percepção microscópica da psique humana nos tira o fôlego.." Rândyna Cunha



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