Há uma cumplicidade amorosa no silêncio de um amigo.

Não vai julgar o outro pelo volume das lágrimas nem dizer que é fraco por não saber se sustentar sozinho dentro de uma dor.

Um amigo sempre possui inclinação para a escuta. Mesmo que esteja quebrado por dentro, vai se reconstruir às pressas para oferecer assistência.

Realiza blitz no passado enquanto procura a memória certa para acordar a esperança do outro.

Costuma repatriar a alegria pela infância. A infância é uma veneziana que abre o sorriso por dentro. Um saída emergencial, uma manobra que dribla o fluxo do sofrimento.

Dentro de poucos instantes, estarão imersos nas fotografias antigas, a revirar as lembranças com a pá da saudade.

O tempo vira um túnel invisível entre a maturidade e a meninice.

Um cordão de amarrar sonhos em nuvens. Uma árvore que desabrocha risadas.

Um varal, onde se permite abandonar o que pesa e resgatar a ternura.

O tempo vira um retroprojetor colorido, onde é possível inventar matizes e enfeitar os dias opacos.

Um amigo é sempre o olho mais lúcido quando a nossa miopia entristece a realidade.

É um vidente com as cartas na manga. Um plantonista que reabilita sonhos enquanto a nossa fé cochila.

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Ester Chaves
"Seu traço escrito é atual, jovial, mas emplastrado de técnica literária. Seus temas são viscerais, nos tomam pelo nó na garganta e nos transversam de cima abaixo e por todos os lados, enquanto ela domina os ímpetos caudalosos do fluxo de consciência. Sua percepção microscópica da psique humana nos tira o fôlego.." Rândyna Cunha



3 COMENTÁRIOS

  1. Que lindeza esse teu texto, Ester Chaves. Como sempre, derramando poesia. “Um cordão de amarrar sonhos em nuvens”! Vou ficar aguardando você me ensinar a fazer isso.

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