Fale mais, cale menos

Por Jocê Rodrigues

E se eu te disser que sou exatamente tudo aquilo que eu quase disse? É que o silêncio às vezes fala mais do que as palavras que deixamos escapar. Coisa estranha isso de ouvir o silêncio dos outros, mas existe. É só perguntar para os casais que quase aconteceram, para os amores que quase foram, para os beijos que quase rolaram. Todos prováveis frutos de silêncios que entalaram palavras importantes como “eu te amo” ou “me desculpe”.

Respeito o silêncio quando não há nada mais a ser dito, caso contrário ele passa a ser um ato de covardia. E puta que pariu, como existe gente covarde nesse mundo! Eu mesmo já fui um deles, calando quando na verdade o que eu queria era gritar, indo embora quando o que eu queria mesmo era plantar um pé de beijos no pescoço de alguém.

Por isso, ouve agora o que eu ainda não disse e me deixa ser aquilo que você finge não querer. Minha angústia é fruto da tua distância, dessa insistência boba do destino em nos fazer duas pessoas e não um só rio. Mas deixa estar, let it be. Um dia ele percebe que melhor é ser água – que de tanto bater, vai desfazer a solidez dessa nossa solidão.

Antes eu inventava teu sorriso, teu cheiro e isso não me satisfaz mais. Não é o suficiente. Quero o toque, o calor da pele, a mão sob a roupa apertando o corpo. Quero tua voz me dizendo impropérios, tua saliva se misturando à minha enquanto nossas roupas involuntariamente se abraçam em algum lugar do chão.

Quero teu som, teu ruído. Quero essa coisa que fica na memória do ouvido, passando por peles e dedos. Teu sussurro quente vestindo meu corpo nu me faz amar a audição, assim como a imagem do contorno perfeito da tua boca me faz amar a visão.

É por essas e outras que eu te proponho, meu bem: no lugar de cultivar apenas silêncios, vamos cuidar e usar bem as palavras.

Eu nem sempre disse o que queria, mas sempre quis o que disse.

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Jocê Rodrigues
"É escritor e editor".



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