You’ve Lost That Loving Feeling‏

Mais um texto do meu amigo e colaborador Djalma Alt Faria Neto:

“Eu consigo viver muito bem sem você
Claro que consigo
Exceto quando chuvas suaves caem das folhas, aí eu me lembro
Da felicidade de ser abrigado em seu abraço
Com certeza eu me lembro,
Mas eu sigo muito bem sem você.
Eu me esqueci de você, assim como deveria
É claro que me esqueci
Exceto quando escuto seu nome
Ou a risada de alguém que é igual a sua
Mas eu me esqueci de você assim como eu deveria…”

Essa música (I Get Along Without You Very Well) cantada por Frank Sinatra, Nina Simone e Renato Russo, traduz muito bem esse sentimento que nos faz lembrar de alguém. Nela, o cara insiste em dizer que se esqueceu daquela pessoa, que consegue levar sua vida na boa e só se lembra dela em alguns momentos: quando acorda, quando dorme, quando escova os dentes, quando chove, deita, tira uma soneca, vê alguém parecido, assiste um filme, visita um determinado lugar, corre na rua, passeia de bicicleta, enfim…
É claro, você já deve ter ouvido falar que não existe em todas as línguas, nenhuma palavra que explique o real significado da palavra portuguesa SAUDADE.

 
 

Na verdade, saudade pode ser explicada como um sentimento difícil de definir, mas fácil de entender.

Ela pode estar escancarada em qualquer pessoa _ estampada naquele sorriso ou escondida por trás de tanta tristeza.

Ter saudade é como participar de uma realidade invisível: você tem as possibilidades de usar tudo a seu favor, de levar adiante sua vida sem pestanejar em qualquer momento _ mas quando se lembra daquele lugar legal que nunca mais voltou, ou daquela pessoa que está tão longe, você pára nem que seja por um segundo para dar aquele suspiro…

Saudade sente quem tem fome, tristeza, amor ou insônia. Quem tem boas histórias pra contar _ quem já sorriu muito, correu muito, se divertiu muito, sofreu muito ou amou muito!  Saudade sente quem um dia parou e percebeu que ficar olhando pra trás não é o melhor negócio e então repetiu baixinho: Eu me quero de volta!

Porque saudade também é você saber cuidar de si mesmo, vibrando uma energia diferente para atrair coisas boas, olhando sempre pra dentro e vivenciando tudo com um novo olhar. Saudade é, muitas vezes, querer e ter a possibilidade de ficar sozinho.

Tem saudade quem já usou Kichute, Maria Chiquinha, tomou Fanta Uva, assistiu desenho animado, andou de patins, comeu chocolates Surpresa, bala de leite Kids, lanches Mirabel, cigarrinhos de chocolate Pan, chupou pirulito Dipn Lik, comprou um suspiro só pra ganhar um relógio de brinde ou fez castelos de areia quando foi passear com a família na praia.
Tem saudade quem sabe que as melhores coisas da vida são as mais simples e então encheu seu pendrive de músicas legais para ouvir no carro, usou aquele monte de moedas pra tomar um espresso na padoca da esquina, parou na estrada para fotografar aquele pôr-do-sol alaranjado que cegava sua visão no caminho de volta pra casa, encarou o dia com sorriso enorme no rosto mesmo sabendo que o horóscopo daquela manhã dizia que  a Lua transitaria pela Casa 5, enquanto o Sol se encontraria na Casa 12, – o que não seria bom porque sua sensibilidade estaria muito aflorada, o que poderia provocar reações exacerbadas sem nenhum embasamento racional.

Tem saudade quem se lembra de alguém na melhor parte da música, naquele pedaço que você gosta mais. Então você sorri enquanto canta junto “estranho seria se eu não me apaixonasse por você”. Porque músicas sempre lembram momentos, que te levam pra algum lugar, que te dão saudade.

Tem saudade quem já se olhou no espelho e não ficou contente com o que viu  e então traçou planos de cortar o cabelo, ir ao dermatologista, frequentar a academia, comprar uma calça nova, experimentar o novo perfume que viu na revista.

Mas é também ter o direito e a possibilidade de se entristecer quando alguma coisa passa a incomodar, quando parece que o mundo joga contra, quando você fica sem lugar, quando o jogo parece estar totalmente perdido. Saudade de um carinho, de um sorriso compreensível, de um olhar de cumplicidade, de ficar preso para sempre naquele abraço que era tão bom!
Tem saudade quem ouve a pessoa falar que vai te amar pra sempre mas mesmo assim quer ir embora da sua vida _ e você então percebe que, por mais que ela insista em te provar que você é super importante, aquele amor se transformou em carinho. E ainda que você não queira essa situação porque ainda ama e ficar sem ela pode parecer desesperador em um primeiro momento, você fica tranquilo porque sabe que fez tudo o que podia, que colocou todas as suas cartas na mesa, que de repente, as coisas realmente não precisam ter sentido algum – pelo menos uma vez na vida.

Tem saudade quem retornou àquele lugar que foi palco de encontro de uma época bem feliz mas que, por algum motivo, passou. Você olha para a mesa ali no canto e se vê, alguns anos mais novo, esperando pela companhia que estava por vir, enquanto a história toda passava pela sua cabeça: o primeiro encontro (aquele), o olhar fixo na tela do celular esperando pela mensagem de “Estou chegando “, o primeiro café, o barzinho que veio logo a seguir, as viagens com fotos na praia, na rua, na chuva ou na fazenda! E tudo se desenvolveu assim: como  as músicas menos conhecidas de um disco que bombou, os famosos Lados B, aquelas canções poucos conhecidas mas não menos importantes, exatamente as suas preferidas.

Olha, saudade traduz você, seus gestos, sua maneira de falar, andar e sorrir!

Saudade traduz você que está tão longe e ao mesmo tempo tão perto. E bate tão forte como naquele refrão, dessa vez de outra música: “E eu nem sabia, como era feliz de ter você”

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Djalma Alt Faria Neto
Djalma, DJ, Djas, Djalminha, Jajá - pode me chamar do que você quiser. Ortodontista que usa All Star, posso viver sem muitas coisas - mas por favor, não me peça pra viver sem música. Hoje em dia mais praia que montanha, mais Pearl Jam que U2, mais Dave Grohl que Kurt Cobain, mais chuva que sol, mais corrida que caminhada, mais sorvete que brigadeiro, mais natação que spinning, mais Instagram que Twitter e muito, mas muito mais cabernet que internet.



7 COMENTÁRIOS

  1. Olá Fabíola!
    Desde que descobri seu blog, não perco nenhuma crônica.
    Essa, como todas as as outras é belíssima.
    Gostaria de ter essa desenvoltura para escrever, porém as palavras, essas por quem tanto sou apaixonada, me fogem. Sendo assim, vou pedir um favor. Há tempos tenho pensado sobre os conflitos familiares. Venho de uma família simples, porém todos de mt bom coração e boa índole, no entanto, recentemente, tivemos uma grande perda. Meu pai se foi aos 68 anos derrotado por um câncer. Isso nos desestabilizou e ultimamente discutimos mt e, às vezes, sinto distanciamento por parte de alguns. Gostaria de entender pq, pessoas que se amam, mts vezes, tb se afastam. Rs, entenda sei que não és psicóloga, apenas queria que buscasse aí, no cantinho de suas idéias, palavras que tentassem, mesmo que levemente me explicar isso.
    Admiro imensamente seu trabalho. Ahhh, parabéns pelo livro. Assim que possível, farei aquisição dele.
    Grande bj e continue nos presenteando com suas belas palavras.

    Atte, M. Leticia Santana

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