Que a gente assuma a vida que escolheu do jeitinho que ela é

Ao cobrir meu filho durante a noite penso no quanto ele está crescendo depressa, em como se modifica rapidamente com o tempo, nos vapores de infância que ainda são possíveis de respirar em nossa casa.

Cada dia é um dia a menos. Por isso, embora haja compromissos _ a vida pede desempenho, obrigações, metas, horários e comprometimento _ é preciso olhar para a existência com olhos de novidade, que não se habituaram com a claridade da rotina, mas se esforçam para usufruir o tempo com qualidade. Mais ou menos como quando viajamos.

Viajar é tão bom porque nos impulsiona a sair de nosso cotidiano repetitivo e a experimentar uma existência nova, totalmente diferente de nossos dias corridos. Em um lugar que nos pertence apenas temporariamente, nosso olhar muda.

Foi assim que me senti nas últimas férias, e é para esse tempo que volto quando as obrigações da rotina pesam sobre meus ombros. Fecho os olhos tentando me lembrar do cheiro da pipoca caramelizada dos parques da Disney, e me vejo andando pela rua principal do Magic Kingdom de mãos dadas com meu marido. Ouço a voz do meu filho comemorando a façanha de ir em mais uma montanha russa e sorrio enquanto caminho apressada. E por mais que se diga que quando estamos vivendo uma realidade com a cabeça em outro lugar não estamos em lugar nenhum, preciso dessa lembrança para me sentir em paz. Eu sei que pode parecer pouco, pode parecer pequeno, mas me apazigua também.

Encontrar conforto na rotina que nos acorda ao som de despertadores não é tão simples quanto parece. Mas podemos treinar nosso olhar. O mesmo olhar que se transforma ao arrumar as malas para partir pode se encantar com o cheiro do filho dormindo, com a repetição dos episódios de Star Wars que me ensinam a entender o contexto do último filme, com o sabor de café recém passado do Centro de Saúde, com o trabalho bem realizado nos cinco dias da semana, com o fim de semana que passa tão depressa, com o vinho no jantar com meu marido, com o calor das mãos de minha mãe no fim da tarde, com o livro “A redoma de vidro” que estou lendo, com a noite que chega rápido demais.

Sofremos com o fim do domingo porque imaginamos a semana como uma tarefa árdua demais para se enfrentar. Não precisava ser assim. Nem todo dia de trabalho é um dia perdido ou ruim. Na verdade devíamos lembrar que é um dia a menos como todos os outros, e por isso devia ser vivido com maestria, por mais difícil que pareça.

Tenho orado em silêncio enquanto caminho pela rampa que termina na porta do consultório onde atendo. Não foi fácil voltar das férias para o Centro de Saúde, mas tenho pensado em alternativas que me permitam usufruir o dia ao invés de apenas enfrentá-lo. Aos poucos tem dado certo. Por mais desgastantes que sejam nossas funções, elas são nossas escolhas, e é preciso estarmos gratos por fazerem parte de nossos dias.

Que a gente assuma a vida que escolheu do jeitinho que ela é, e não perca tempo lamentando a porção difícil que qualquer dia carrega. Que nosso olhar possa se renovar diariamente, mesmo que a rotina seja repetida exaustivamente. Que a gente descubra maneiras de se surpreender, nem que seja variando o trajeto para o trabalho, mudando a forma de começar as refeições, alterando o lado para o qual repartimos o cabelo, seguindo novos roteiros de viagens no Instagram. E que não nos falte ânimo para realizar todas essas coisas, pois cada dia é menos um dia, e o melhor que podemos fazer é vivê-lo com sabedoria.

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Fabíola Simões
Nasceu no sul de Minas, onde cresceu e aprendeu a se conhecer através da escrita. Formada em Odontologia, atualmente vive em Campinas com o marido e o filho. Dentista, mãe e também blogueira, divide seu tempo entre trabalhar num Centro de Saúde, andar de skate com Bernardo, tomar vinho com Luiz, bater papo com sua mãe e, entre um café e outro, escrever no blog. Em 2015 publicou seu primeiro livro: "A Soma de todos os Afetos" e se prepara para novos desafios. O que vem por aí? Descubra favoritando o blog e seguindo nas outras redes sociais.



15 COMENTÁRIOS

  1. Ler seus textos tem me ajudado tanto a, pelo menos, tentar enfrentar as coisas que estou passando no momento. São inspiradores, motivadores e me fazem ter vontade de viver (coisa que não sentia há muito tempo).

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