Estar lá

 Numa época distante, eu achava que “prova de amor” era um termo usado para definir grandes feitos, como ajoelhar-se no meio da rua na madrugada ou encomendar uma faixa com declarações de amor copiadas de versos do Vinícius. De fato vivi algumas situações parecidas na adolescência e guardo com carinho esses momentos de pura paixonite juvenil.

Mas o tempo passa. Ah… como passa… E muito mais que esperar provas de amor intempestivas, descobrimos que amor de fato é estar lá.

 Esta semana teria que fazer um exame de saúde e durante o preparo passei muito mal.
No banheiro, me contorcendo de dor e agarrada à calça de moletom do meu marido, não conseguia pensar em mais nada. Porém, horas depois, constatei admirada que aquela tinha sido uma grande prova de amor. Segurando meu cabelo, enquanto eu vomitava vezes seguidas, aquele homem participava de minha agonia numa parceria tão amorosa, simples e verdadeira que, apesar do excesso de intimidade, me mostrou que estará comigo até nos momentos em que o cenário se restringir ao chão frio e inóspito, e a paredes cor gelo nada acolhedoras.

Não havia nada de romântico entre aquelas toalhas felpudas e escovas de dente coloridas. Mas ele estava lá. Preocupado, segurando forte minha mão _ e meu cabelo _, garantindo que logo eu estaria bem.

Descobrir que existe alguém que está lá nas horas mais difíceis e necessárias, ou nos momentos mais intensos e felizes é o que faz esse alguém ser tão especial ou um grande amor.

Lembro que uma amiga querida me contou que quando perdeu a mãe, seu marido era quem mais chorava. Aquilo lhe comoveu tanto a ponto dela não saber quem ali deveria consolar quem. Inexplicavelmente, o choro dele foi o estar lá com ela. Sentir a dor que ela sentia e partilhar de sua angústia tinha sido mais que uma prova, tinha sido o amor em si.

Estar lá é ser mão que entrelaça seus dedos aos nossos, desmanchando os nós, afrouxando as defesas, apaziguando as imprevisibilidades;

 Estar lá é amparar dúvidas, dissecar incertezas, afugentar medos;

É segurar a barra quando a vida pesa além da conta, e não baixar a guarda quando a imperfeição dos dias faz morada no vitral de nossa paisagem.

Estar lá é correr para ver o céu se colorir de vermelho no fim do dia e não se esquecer de partilhar a novidade com quem ama, nem que seja à distância, somando e dividindo a alegria.

É absorver a felicidade inteira, para depois dividi-la em pedaços generosos descobrindo que só assim restará beleza e euforia.

Estar lá é entender que a vida não é uniforme, ela é repetitiva; e se estivemos presentes num momento importante, o estaremos sempre, e sempre, e sempre, de uma forma ou de outra;

Estar lá é nunca ser ausência que dói, que machuca, que vira lembrança e depois ressentimento. É entender que é necessário fazer-se presente, mesmo que de uma forma invisível, mas ainda assim, viva.

É aprender a conduzir uma dança que só pode ser dançada a dois, relevando a falta de jeito de quem tenta, ou ao menos se esforça pra ser o melhor enquanto está lá.

 Estar lá  é ser capaz de perdoar, colocando uma pedra em cima de certas instabilidades e dissonâncias, desenvolvendo a paciência e a tolerância de quem apenas quer estar lá

Ao constatarmos que estar lá é mais importante que dar provas de nosso afeto, descobrimos que nossa história real está longe de ser comparada aos enredos românticos ou clássicos de livros e filmes.

Esperamos demais da vida e do amor, e nos esquecemos que só precisamos contar com alguém de verdade.
Alguém que de alguma forma esteja lá

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Fabíola Simões
Nasceu no sul de Minas, onde cresceu e aprendeu a se conhecer através da escrita. Formada em Odontologia, atualmente vive em Campinas com o marido e o filho. Dentista, mãe e também blogueira, divide seu tempo entre trabalhar num Centro de Saúde, andar de skate com Bernardo, tomar vinho com Luiz, bater papo com sua mãe e, entre um café e outro, escrever no blog. Em 2015 publicou seu primeiro livro: "A Soma de todos os Afetos" e se prepara para novos desafios. O que vem por aí? Descubra favoritando o blog e seguindo nas outras redes sociais.



24 COMENTÁRIOS

  1. Perfeito, acompanhando a pouco tempo seu blog, fico encantada com sua percepção, sua sensibilidade e clareza ao nos passar uma bela crônica como está, parabéns e obrigada por nos presentear sempre . Que sua sensibilidade seja sempre sensível a voz do seu coração :-) .

  2. Estou com lágrimas nos olhos após ler este texto maravilhoso. Isto fez alegrar mais o meu dia. Obrigada. Com certeza irei repassar para as pessoas que amo e que estão lá por mim.

  3. Ola.
    Passei por algo parecido a quinze dias atrás por conta de um intoxicação alimentar. E ele estava lá para segurar os meus cabelos, pra ajudar-me a ficar de pé quando as sucessões de vômitos era constatante ao, ponto de eu não conseguir me equilibrar sozinha, ele estava lá empurrando a cadeira de rodas, ele estava lá falando por mim ao médico relatando o que havia acontecido, ele estava lá segurando a minha mão até o último momento, antes de eu entrar na sala de medicação e de horas em horas ele vinha perguntar como eu estava.

  4. Fabíola obrigada por sempre me mostrar que os pequenos detalhes da vida, na verdade são toda ela … e que as vezes o menor dos atos pode ser grandioso… obrigada por me fazer olhar mais pro lado e perceber que tenho GENTE que caminha comigo … obrigada por tornar meus olhos mais sensíveis para o que me cerca … Vanessa Maria

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