Com o tempo a gente aprende: reinvenção é melhor que perfeição

Ontem um dos maiores poetas brasileiros faleceu. Manoel de Barros se foi aos 97 anos, deixando como legado sua poesia, seu olhar único sobre o mundo ( é dele a frase:  “há um comportamento de eternidade nos caramujos”), e sua forma nítida de ser e se renovar perante a existência.

Fabrício Carpinejar, escritor e poeta, publicou um texto lindo em homenagem a Manoel de Barros e lá pelo final arremata: “Manoel de Barros afirmava que o verdadeiro conhecimento está na leitura do mundo”.

Tomei essa frase para mim, assim como grifei um dos poemas de Barros, que diz:

” A maior riqueza do homem é a sua incompletude. Nesse ponto sou abastado. Palavras que me aceitam como sou _ eu não aceito.

Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às 6 da tarde, que vai lá fora, que aponta lápis, que vê a uva, etc, etc.
Perdoai. Mas eu preciso ser Outros.

Eu penso renovar o homem usando borboletas”.

Somos a leitura que fazemos do mundo. E podemos ler delicadezas, miudezas, singelezas ou, ao contrário, aceitar o espetáculo do medo, da falta de esperança, da ausência de fé.

Que possamos nos inspirar em Manoel de Barros e ouvir mais canto de passarinho que ronco de motor; acompanhar mais a marcha das lagartixas que notícias bombásticas na tevê; socorrer joaninhas em posição invertida no lugar de dar ouvidos a tanta previsão catastrófica por aí.

O que sinto é que o mundo poderia nos encantar e nos tirar da mesmice se a gente se detivesse mais ao chão e ao céu que ao espaço intermediário entre esses dois.

Se a gente aprendesse a importância dos quintais e dos gravetos, do cheiro de suor e terra molhada, bolo de areia e espuma de nuvem.

Como dizia Manoel de Barros, “poesia é voar fora da asa”. É sair da obviedade do seu mundo e viajar para outros espaços de si mesmo.

Quando viajamos o tempo corre alterado. É que passamos a observar as entrelinhas dos lugares, alcançando suas profundezas.

Talvez seja isso que nos falte: alcançar as profundidades da vida, desprezando e desbravando mais as próprias fronteiras que os abismos do lado de fora; descobrindo mais de seus mistérios e despropósitos que de suas resoluções e metas para o próximo ano; descobrindo-se mais poesia que poeta; mais ventania que alicerce; mais orvalho que temporal; mais aroma que perfume; mais sabor que paladar.

Com o tempo a gente aprende: reinvenção é melhor que perfeição.

E vamos descobrindo que é possível nos reinventarmos todo dia, fazendo nossa leitura do mundo da maneira mais bonita que soubermos, buscando nossas respostas no vazio ou no barulho do vento, na tristeza ou no desbordamento do sorriso.

Ou então, feito menino de Manoel de Barros, o menino que queria carregar água na peneira e gostava mais do vazio que do cheio _ “falava que os vazios são maiores e até infinitos…” _ descobrindo que quem dá a dimensão para o mundo somos nós. Nós e nossa leitura do mundo, reciclando e renovando a cada dia, nem que seja “usando borboletas”…

Imagem de capa: Zaitsava Olga / Shutterstock

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Fabíola Simões
Nasceu no sul de Minas, onde cresceu e aprendeu a se conhecer através da escrita. Formada em Odontologia, atualmente vive em Campinas com o marido e o filho. Dentista, mãe e também blogueira, divide seu tempo entre trabalhar num Centro de Saúde, andar de skate com Bernardo, tomar vinho com Luiz, bater papo com sua mãe e, entre um café e outro, escrever no blog. Em 2015 publicou seu primeiro livro: "A Soma de todos os Afetos" e se prepara para novos desafios. O que vem por aí? Descubra favoritando o blog e seguindo nas outras redes sociais.

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