A simplicidade carrega dádivas

Título Original: Aviões de Papel

Minha casa foi invadida por aviões de papel. Na mesa da sala, nos degraus da escada, no quarto de brincar e de dormir… os modelos, dos mais variados tipos e potências, aterrizaram em nossos passos e espaços.

Meu menino, que também adora tevê e videogame, anda descobrindo o prazer da simplicidade.

O tempo passa e permanecem as coisas mais simples. Como peão que rodopia e traz pra perto do filho a infância dos pais, a simplicidade ensina que a eternidade mora nos detalhes; na cauda do avião de papel milimetricamente ajeitada pelo avô e na mancha de farinha que colore o colo da mãe.

Simplicidade de presença sentida e ausência sofrida, pés no chão e olhos atentos, vontade e verdade _ intercaladas e misturadas _ trazendo a noção de que ser simples é estar inteiro.

Não necessita retoque, glamour, etiqueta. Não exige aprovação, só adivinhação. Desapegado se faz do consentimento alheio, dos comentários digitais, dos olhares de recriminação.

A simplicidade gosta de rascunhos sinceros, poeira varrida pelo vento, fotos desbotadas pelo tempo, verdade escrita pela caligrafia da honesta presença e sinceridade ilesa de retoques corretivos.

Os aviões de papel mostram que nem tudo que parece perfeito será sempre melhor. Que a imperfeição e escassez de luxo podem ser reconfortantes e causar saudades permanentes.

Que nos momentos onde a madeira lasca, a água é escassa e o feijão e café, mais ralos, a lembrança torna-se mais aguda, e _ apesar de toda ranhura _ mais bonita.

Muita história de amor foi construída sob um teto de dificuldades; estante da sala de caixotes de feira, paredes caiadas de tinta diluída, café da manhã com pão amanhecido. E arrisco acreditar que as adversidades tenham feito o amor mais forte, apesar de simples.

Tenho saído todas as manhãs para caminhar num parque perto de casa. Sim, sou abençoada por ter uma lagoa linda pra contornar, e uma paisagem exuberante pra me acompanhar. Hoje cedo, a fonte, numa das margens do lago, estava ligada. Tocava Frank Sinatra e durante minha passagem fui presenteada com duas músicas que adoro, Moon River e Cheek to Cheek. De repente percebi que a felicidade se constrói assim, não de uma vida perfeita _ e ilusória _ mas de momentos simples e concretos. Sozinha, agradecida por ter meu corpo funcionando perfeitamente, tendo a facilidade de frequentar esse parque que se avizinha à minha casa, sentindo o sol e o vento em meu rosto, senti-me premiada com o script e a trilha musical extremamente clichês e simplesmente perfeitos.

Pode demorar algum tempo para percebermos que a simplicidade carrega dádivas. Que um aviãozinho de papel num dia de vento pode ser mais prazeroso que um quarto cheio de brinquedos. Que caminhar sem preocupação por uma paisagem exuberante traz mais resultados pra saúde que correr doze quilômetros em uma hora de esteira na academia; que um bolo simples, sem recheio ou cobertura, saído do forno acompanhado de café quentinho é mais gostoso que a torta holandesa da confeitaria; que o rosto recém lavado, saído do banho, pode ser mais sexy que o olho preto com cílios postiços e delineador fatal; que um elogio sincero e inesperado levanta mais a relação que o presente obrigatório no dia especial; que a presença verdadeira _ sem relógio, celular ou plano de fuga _junto aos filhos traz saldos muito mais positivos à infância que qualquer tablet repleto de apps.

Meu filho continua inventando modelos de aviões de papel. Pesquisando na internet ou recebendo a ajuda do porteiro do condomínio (um exímio construtor de aviões), vai aprendendo que qualquer folha bem dobrada pode modificar um fim de tarde comum.
E eu sigo como observadora de sua corrida atrás dos aviões de papel, percebendo que a vida pode sim, ser mais simples _ se a gente quiser… e permitir.

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Fabíola Simões
Nasceu no sul de Minas, onde cresceu e aprendeu a se conhecer através da escrita. Formada em Odontologia, atualmente vive em Campinas com o marido e o filho. Dentista, mãe e também blogueira, divide seu tempo entre trabalhar num Centro de Saúde, andar de skate com Bernardo, tomar vinho com Luiz, bater papo com sua mãe e, entre um café e outro, escrever no blog. Em 2015 publicou seu primeiro livro: "A Soma de todos os Afetos" e se prepara para novos desafios. O que vem por aí? Descubra favoritando o blog e seguindo nas outras redes sociais.



7 COMENTÁRIOS

  1. Querida Fabíola,
    Semanalmente sempre que possível sigo um ritual simples e gratificante, ler seus textos, tão cheios de sentido , de vida latente , sensível a si e ao próximo… Agradeço reservadamente, assim como vc citou, a chance de poder compartilhar suas vivências e misturá-las as minhas …
    Que Deus sempre te anime e te encoraje a escrever…Obrigada…Priscila Spalding Esteves

  2. Maravilhoso!! Gostei de mais. Mas eu sou Argentina e não sei como fazer para ter seu livro em minhas mãos e na língua portuguesa que eu tanto gosto!! Obrigada. Deus abençoe você!!!! Com carinho, Isaura.

  3. Que lindo! Como Deus é Bom.. nós o reconhecemos em suas criaturas.. voce me fez sentir isso! Muitas graças por partilhar conosco suas letras e inspirações!
    Estou na Espanha, mas sou Catarinense (BR) e me encanta andar pelos parques, praias… de mãos dadas com a simplicidade. Penso que o mundo está carente de ternura, bondade e pequenos gestos de acolhida. Isto bastaria para nos fazer felizes!

    Sinta-se abraçada.
    Muitas graças!
    Valquíria

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