Carta ao Tempo

 Querido tempo:

 Assim como a letra de Maria Gadú, quero fazer um acordo contigo.

 Nosso vínculo não tem sido o dos melhores, e cansei de ser submetida ao seu domínio.
 Como já disse anteriormente, não desejo mais corridas em minha vida. E por mais que resista, você me faz correr. Por mais que declare independência, você insiste em me submeter.
 
Já não quero mais ser controlada por você. O tempo dos relógios me cansa. E me faz perder tempo _ o velho paradoxo em que a vida dos ponteiros nos faz perder tempo na vida…
 
 Meu cotidiano foi invadido por compromissos, responsabilidades, horários. Tudo isso faz parte, você dirá, e até posso concordar com você _ é assim que educamos nossas crianças, não é? Desde muito cedo com um relógio no pulso e regras rígidas que compõem o que chamamos rotina.
 
 Mas se damos a mão, você quer o braço. Por isso sinto-me sugada por você, “senhor tão bonito”. Não deveria ser assim.

 As regras não deveriam valer para mães, por exemplo _ mães de meninos que crescem depressa, enquanto cumprimos a aceleração dos ponteiros fora de seus horizontes.
 
Também não deveriam valer para almoços de família com netos reunidos em volta de uma mesa barulhenta.
 
Quebraria suas regras todo e qualquer pai que trabalhasse fora e só lhe restasse a noite para estar com sua família _ o tempo das estrelas poderia durar muito mais, antes dos pijamas chamarem para o sono…
 
 O senhor tem me feito uma pessoa diferente daquela que planejei. Tenho andado ansiosa, falando rápido e comendo apressada. Me enervo com o motorista lento à minha frente e peço para meu filho não enrolar diante da tv na hora de ir para a escola. Beijo meu marido sem olhar-lhe nos olhos e fico impaciente com as filosofias de minha mãe ao telefone. Aliás, parei de gostar de telefone por sua culpa ( acho que esse foi um ganho… ou não?).

 Mas o pior é constatar que poderia andar mais devagar, não fosse o senhor me empurrando pra todo canto. Eu poderia escolher um CD bem bacana pra ouvir no carro enquanto o motorista vagaroso desfila à minha frente; poderia assistir ao Tom & Jerry com meu filho antes da escola e rir ao seu lado descontraidamente. Poderia agradar meu marido com uma presença simples, de semblante apaziguador; poderia conversar com minha mãe sem pressa e até gostar de um telefonemazinho de vez em quando.
 
 Mas sabe? O senhor está me esgotando. Pensando que é dono de meus caminhos e senhor do meu pulso, me conduz sem negociada compaixão. Porém, minhas pulsações cansaram de seguir o tic tac dos segundos em sua cadência compassada e ritmada.
 
 Meu compasso é outro, e mesmo que minhas obrigações determinem certas programações, hoje peço-lhe alforria. Quero a paz dos libertos e a serenidade dos escolhidos.

Não quero o tempo de Benjamim Zambraia _ da obra de Chico Buarque _ cujo prazo se esgotou no momento em que percebeu que poderia ter se detido ‘nos momentos que lhe pertenciam, e que antes não soubera apreciar.’ Ou que poderia, tarde demais, ‘penetrar em espaços que não conhecera, em tempos que não eram o seu, com o senso de outras pessoas’.O tempo é relativo, dirão os físicos. Pra mim tem se tornado escasso onde quero demorar-me. E escolhi demorar-me no cheiro de canela, nas páginas de Phillip Roth, no cafezinho cara a cara com minha mãe, nos lençóis com meu marido, na bola rolando despretensiosa com meu filho. Longe dos relógios burocratas e compromissos agudamente pontuais.

Por isso peço-lhe tempo. Sim, o tempo dos amantes quando se desentendem. Me dê um tempo. Tenho que repensar nossa relação tumultuada, nosso pouco entendimento, meu receio de tornar-me ‘Benjamim Zambraia’.

Pode ser que daqui a algum tempo eu me reconcilie contigo. Mas no momento presente, a pressa me desafia e não desejo afrontá-la.

Quero apenas os momentos que me pertencem _ todos eles _ inteiros, sugados até o fim. Sem pulsações apressadas que me indiquem que é hora de partir.

Quero ser dona de minha hora, senhora de meus minutos, consciente de minhas pausas.

E aí então, pronta para o desfecho final, olhar satisfeita para a existência projetada do começo ao fim e constatar:
Fui, vi e vivi. Realizada e feliz.

Apesar do tempo, nesse tempo:

Fim.

 

 

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Fabíola Simões
Nasceu no sul de Minas, onde cresceu e aprendeu a se conhecer através da escrita. Formada em Odontologia, atualmente vive em Campinas com o marido e o filho. Dentista, mãe e também blogueira, divide seu tempo entre trabalhar num Centro de Saúde, andar de skate com Bernardo, tomar vinho com Luiz, bater papo com sua mãe e, entre um café e outro, escrever no blog. Em 2015 publicou seu primeiro livro: "A Soma de todos os Afetos" e se prepara para novos desafios. O que vem por aí? Descubra favoritando o blog e seguindo nas outras redes sociais.



6 COMENTÁRIOS

  1. É, tempo… O senhor tem me dominado também :/
    É realmente triste como não conseguimos aproveitar direito nosso tempo – pois estamos sempre sem tempo. Sempre correndo, sempre inventando desculpas para não nos dar a chance de viver…
    Eu passei um bons anos assim, só na correria. De fato, ainda sou nova, então tenho muito chão pela frente. Mas tive que dar um basta, pra não passar toda minha juventude/início da idade adulta já nessa mania de correria.
    É preciso dar tempo ao tempo para viver, como você disse.

    Beijos, Luisa
    Degradê Invisível

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