“Repetir o amor é aperfeiçoá-lo”

Quando eu era pequena, minha mãe tinha o costume de emoldurar meus desenhos e decorar a casa com as peculiares “obras de arte”. Eram bonitinhos e cheios de detalhes, mas ainda assim, garranchos de uma garotinha de quatro anos. Depois, passou a comprar telas onde eu adorava inventar grafismos rebuscados, cheios de caracóis, casinhas, árvores e canteiros coloridos. Orgulhosa, mais de uma dezena de vezes me levou à praça da cidade_ onde acontecia uma feirinha de artistas_ para expôr meus pretensiosos rascunhos, fazendo-me acreditar que era artista também. Era um momento só nosso, e lembro da alegria que eu sentia nessas ilusões disfarçadas de realidade, ou verdades embebidas de fantasia. Algum tempo depois, aos onze anos, participei de um concurso de redações entre escolas públicas do estado de Minas. Ganhei o prêmio, uma bicicleta, e fui receber em Belo Horizonte. Minha mãe viajou comigo, 450 km de ônibus, e quando chegamos, entre entidades de terno e jornalistas ansiosos, uma baixinha sorria orgulhosa, enquanto fazia gestos exagerados para que eu fosse à frente agradecer em nome de minha cidade. Apesar de tímida, sua emoção me dava combustível. Fui ao microfone, saí na foto do jornal “O Sul de Minas” e até hoje guardo o recorte daquela tarde inesquecível onde ela, mais uma vez, ficou na retaguarda enquanto seus olhos iluminavam meu caminho, como um farol.

Sabe mãe, contei essas duas historinhas para dizer que me lembro. Lembro do seu olhar, das suas mãos segurando as minhas no ônibus para BH, da sua voz me ajudando com as palavras certas para compôr a redação vencedora (“n.e.g.a.t.i.v.i.s.m.o. do homem para com a natureza”, recorda?); lembro das horas (ou minutos) sentada ao meu lado na praça entre os artistas. Lembro também de esperá-la de banho tomado e cabelo escovado, ansiosa pelo momento em que virava a esquina da nossa rua, voltando de mais um dia no trabalho; da voz forte puxando o coro da catequese ( era tão difícil dividi-la com a igreja…); do dia que engasgou e o papai a segurou de ponta cabeça_ chorei pensando que você ia morrer; das pastas onde colecionava nossos trabalhos (você foi minha primeira professora!), da dificuldade que tinha de se dispor daqueles trabalhinhos antigos da escola _ pois todos eram considerados relevantes demais; da noite em que foi me buscar no jazz e, entendendo minha inadequação, permitiu que desistisse.

Como já disse, você foi minha primeira professora. E tendo-a como espelho, durante algum tempo perdi-me de mim. Foi preciso me quebrar para então recolher-me como desejava. Apartar-me como num parto, para habitar minha própria história. Doeu descobrir nossas diferenças. Doeu principalmente perceber que falta em mim aquilo que admiro em você. Somos partes do mesmo novelo, eu sei; e desenrolei-me para costurar novas fazendas _aquelas mais serenas, que me revelam mais_ mas percebo agora que nossos fios se embaralham, misturam, confundem, alinham e desalinham nas voltas que o carretel dá, e sem querer me surpreendo copiando suas falas, embasando suas tradições, fundamentando seus argumentos, encorajando seus modos. Costurei-me em novos tons, mas me pego repetindo os croquis. E desejo crescer tendo-a como referência, pois como disse Fabrício Carpinejar: “Repetir o amor é aperfeiçoá-lo”. Não sei se conseguiria aperfeiçoar aquilo que já é perfeito, mas sei onde estiveram seus melhores gestos_ os que quero perpetuar. Assim como desejo repetir o jeito que vem desenrolando essa sua nova fase de mudanças, amadurecimento, crescimento, renascimento_ como avó, bordadeira, ‘contralto’ no coral do Circulo Militar, vicentina e fazedora de sopa dos moradores de rua, sócia fundadora do grupo das “garotas do chapéu violeta”, mãe carinhosa e presente.

O tempo passou tão depressa… E agora me lembro mais uma vez.
Naquele dia em que você chegou, fui lhe buscar na rodoviária com um vaso de flor e vários desejos na alma. Queria lhe abraçar e dizer que tudo ficaria bem, mas tive medo de perder o equilíbrio e descortinar minha fragilidade _ o que aconteceria ao vaso se eu desabasse? Talvez ficasse em cacos como nós duas estávamos; assim percebi que você endurecia também. A vida tinha que seguir.

Não sei o que foi feito daquele vaso, deve ter esgotado seu tempo da mesma forma que fomos recolhendo nossos medos enquanto entendíamos que um novo período começava. Hoje, quando abro o portãozinho do “Rainha Vitória” e atravesso a entrada, olho à direita e enxergo você. Você, que pra não murchar, criou um jardim de florzinhas coloridas onde antes só havia vegetação seca pelo sol. Você, que para nos fortalecer, se ofereceu inteira, apesar de fragmentada, como um vitral. Você, que desde que aprendeu a enviar sms não nos deixa um dia sequer sem boas notícias do lado de lá _ como uma garantia de que tudo ficará bem, apesar dos riscos de qualquer existência. Você, que para nos lembrar, se faz presente no bolo de fubá com queijo, nas montagens de sucatas com nossas crianças, na fé que ensina e vivencia, nos bordados que nos presenteia, nas apresentações do Coral que modificam nossas rotinas.

Queria hoje poder emoldurá-la como fazia com meus desenhos. Ter seu sorriso em meus cômodos e sua disposição na minha cabeceira. Talvez seja isso que me faça cada dia assemelhar-me mais a você. A vontade que não tenha fim. O desejo que seja para sempre MÃE.

  A foto ‘histórica’ em que apareço ao microfone. É para minha mãe que meu olhar se dirige enquanto falo.

  Minha mãe e nós três

       Com o tempo, ficamos parecidas… Ela na década de 70; eu, em 2014.

 

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Fabíola Simões
Nasceu no sul de Minas, onde cresceu e aprendeu a se conhecer através da escrita. Formada em Odontologia, atualmente vive em Campinas com o marido e o filho. Dentista, mãe e também blogueira, divide seu tempo entre trabalhar num Centro de Saúde, andar de skate com Bernardo, tomar vinho com Luiz, bater papo com sua mãe e, entre um café e outro, escrever no blog. Em 2015 publicou seu primeiro livro: "A Soma de todos os Afetos" e se prepara para novos desafios. O que vem por aí? Descubra favoritando o blog e seguindo nas outras redes sociais.



14 COMENTÁRIOS

  1. Eu realmente fiquei emocionada com a veracidade e sensibilidade do se texto e … como há a capacidade de nos identificarmos em suas crônicas verdadeiras , pois a partir delas , podemos nos desdobrar e refletir à respeito de nossas relações…
    Obrigada por sempre buscar inspiração para escrever e também nos inspirar… Hoje sendo mãe percebo o quanto nossas mães( que possuem um memorial afetivo de nossas vidas )ainda são fonte de inspiração e força para nós que vamos aprendendo e sintetizando a arte da maternidade com a nossas vidas…Beijos carinhosos em seu coração…Priscila

  2. Ontem conheci sua página no Face, hoje estou aqui visitando seu blog… Aí descobri que é mineira, não desmerecendo qualquer outra região desse país, mas nós mineiros nos reconhecemos naquilo que nos é mais caro… Simplesmente lindo tudo que escreve, é de uma delicadeza e ao mesmo tempo forte… Sou uma apaixonada pelos escritores mineiros, entre eles tenho um amor especial pelo Rubem Alves e encontrei um pouquinho dele nos seus textos… Digo que ele é um amor de uma vida inteira… Parabéns, vou procurar pelos seus textos, se me permitir, sempre lhe dando o devido crédito, publicarei alguns na minha página do face. Ontem li e compartilhei… “colcha de retalhos”… LINDO… Parabéns e obrigada. Abraços fraternos. Segue anônimo porque não consegui publicar de outra maneira. Lucimara Rocha / Varginha MG

  3. Olá Lucimara! Primeiramente obrigada e seja bem vinda!!! Sim, sou mineira de Itajubá, pertinho de Varginha… Tenho alguns parentes distantes aí na sua terrinha tb, e fiz faculdade em Alfenas, próximo também! Adoro o escritor Rubem Alves, por coincidência, ele mora aqui em Campinas, e tive a chance de conhecê-lo numa noite de autógrafos, apaixonante! Fique a vontade para compartilhar meus textos, fico muito feliz quando as pessoas se identificam e partilham! Mais uma vez, obrigada!!! Bjs, Fabíola

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