Laura


Você chegou de manhã, recebi suas fotos pelo celular _ o mundo mudou tão depressa…_ e logo reconheci o nariz do seu pai_ ainda que nessas horas a gente insista em buscar algo familiar, mesmo que não seja óbvio.
Você será comparada muitas vezes ainda, e espero que tolere com bom humor, faz parte do pacote essa necessidade que a gente tem de lembrar, se sentir perpetuado, ter orgulho da cria… e nessa euforia, erramos muito também, e eu torço pra que você saiba entender esse carinho, nem sempre fácil de aturar.

 

Esse é o primeiro e maior de todos os seus começos. Seus pais estão começando também, e acho que não conseguirei mais esquecer a voz embargada de seu pai na noite do seu primeiro dia. Ele falava revelando a emoção e dizia que eu tinha razão, a sensação era incomparável. Do outro lado da linha me calei por não ter voz com que continuar. Aquele homem, do alto de seus trinta e tantos, descobria que a vida recomeçava. De um jeito novo, lindo, poderoso. E me lembrei dos dias difíceis que permearam sua vida adulta, dos outros começos que ele enfrentou que não foram tão bons assim; mas ainda assim, começos.

Então Laura, o que eu quero dizer é que a vida não é uma jornada que começa agora e termina lá na frente. Ao contrário, vai começando, finalizando, recomeçando, terminando… inúmeras vezes, mais do que ousamos suportar; mas uma hora você descobrirá que o que faz cada um ter uma boa vida é saber tirar de letra essas viradas de página que acontecem de forma planejada ou não _ na maioria das vezes sem pedir licença, chegando e nos desorientando por algum tempo, mas depois permitindo que a gente descubra que tem recursos que nem sabia que existiam, e que a tribulação foi o gatilho para nos conhecermos melhor.

Tome cuidado pra jamais se deixar dominar pelo papel de vítima. Tá certo, de vez em quando é bom um agrado, uma atenção especial, um carinho solidário. Mas não assuma esse personagem, a armadilha é certeira e cruel. Não busque fora de você culpados _ pra sua dor, sua solidão, sua inadequação. Descubra sim, recursos que podem lhe tirar desses lugares que inevitavelmente ocorrerão. Não busque nas pessoas seu consolo, mas investigue o que pode mudar em si mesma.

Se precisar de inspiração, mexa nas tintas de seu pai e aprofunde nas cores e nuances que ele cria pra extravasar sua poesia, sua sensibilidade perante o mundo, sua esperança diante da vida. Pratique algum esporte, experimente fazer alguma travessia a nado como sua mãe_ você pode não lembrar, mas esteve duplamente submersa, dentro do barrigão da mamãe corajosa e orgulhosa que continuou dando suas braçadas até o nono mês. Lembre-se também de sua avó (e agora me vem à lembrança a letra da música que diz mais ou menos assim: “A arte de sorrir cada vez que o mundo diz não…”). Sua avó começou novamente aos sessenta e poucos, e tem nos ensinado a sorrir, a tolerar um enredo diferente daquele que foi arquitetado, a brincar de viver. E se nada disso fizer sentido, rabisque suas idéias como essa sua tia que agora lhe escreve.

É lugar comum dizer “estamos todos no mesmo barco”, mas é assim que é. Por mais que existam histórias bonitas ou tristes, elas ocorrem pra cada um_ de uma forma ou de outra. É certo que virão alegrias e vitórias, e desejo que saiba brincar com elas, pois são faíscas, e quanto antes você entender isso, mais cedo conseguirá lidar com a aridez que permeia os dias comuns. Viver não é fácil, e rezo para que você saiba resistir. A resistir com serenidade e fé, descobrindo-se além dos próprios limites, reciclando seus pensamentos, duvidando de suas certezas, desconstruindo e reconstruindo a si mesma independente da idade que tiver.

Nunca imagine que fracassou, não se permita entrar nesse lugar ruim. De vez em quando as coisas não correm como planejamos, e é normal sentir frustração. Mas como querer controlar tudo? Uma hora você vai descobrir que certas coisas acontecem sem a nossa permissão, mas ainda assim, nos ajudam a sair de nosso centro e finalmente abrir aquela gavetinha escondida que nunca fomos capazes de escancarar.

E por fim, não se esqueça: é das coisas mais simples que a gente se lembra mais. E um dia, tarde da noite, talvez você se recorde de antigos sons, vozes aquecidas que embalaram sua infância, cheiros conhecidos de tinta escorrida pelo chão da sacada, ou a música que embalou o amor de seus pais. Então, nesse presente que se descortina, absorva esses momentos simples com sabedoria, pois são eles que dão sentido à existência. E se chorar um pouquinho, não se ressinta dessa emoção, pois é esse sal que tempera a experiência linda e única que começa agora.

Bem vinda à vida!

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Fabíola Simões
Nasceu no sul de Minas, onde cresceu e aprendeu a se conhecer através da escrita. Formada em Odontologia, atualmente vive em Campinas com o marido e o filho. Dentista, mãe e também blogueira, divide seu tempo entre trabalhar num Centro de Saúde, andar de skate com Bernardo, tomar vinho com Luiz, bater papo com sua mãe e, entre um café e outro, escrever no blog. Em 2015 publicou seu primeiro livro: "A Soma de todos os Afetos" e se prepara para novos desafios. O que vem por aí? Descubra favoritando o blog e seguindo nas outras redes sociais.



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