O dente mole

Fazia dias que o dente amolecera. Como seus companheiros, sabia que se aproximava a hora da partida, de soltar-se gentilmente e deixar que outro, maior e mais forte, ocupasse seu lugar. Mas ele não queria partir. Sabia que se fosse, o sorriso do menino se abriria como uma janela dupla, e por isso mantinha-se fiel, como uma portinha capenga, frouxa, de parafusos soltos.

O menino tinha medo também. Fez um pacto silencioso com o dentinho mole e jurou mantê-lo até o último suspiro, na vã esperança de que assim pudesse segurar um pouquinho de infância também.

A semana passava e a portinhola perdia parafusos, despencava lateralmente e agora o dente mais parecia um náufrago, ou o sobrevivente de uma queda, que se agarra a um cipó e tenta desesperadamente manter-se salvo frente ao desfiladeiro.

O menino comia devagar. Não se queixava, para não despertar ansiedades. A mãe, dentista, já tinha dado as orientações de praxe, mas era paciente e tentava enxergar com o coração. Acreditava na dor das despedidas, na dor do crescimento. E por isso entendia o luto_ natural, e nem por isso menos doloroso.

Então numa manhã, finalmente conformado, o menino pediu que a mãe desse um jeito. Com um chumaço de algodão, os dedos da mãe se aproximaram do dente e este, respirando fundo, simplesmente se soltou. O menino mantinha os olhos fechados e nem percebeu quando a mãe mostrou, cheia de orgulho, o dentinho exausto e entregue. Suspirando, foi ao espelho conhecer seu mais novo sorriso.

Essa historinha contemplou minhas duas últimas semanas. Ontem o dentinho caiu trazendo a noção de que a vida é feita de lutos. Lutos pequenos ou grandiosos, mas que permanecem conosco no decorrer dos dias.

Todos os dias, claramente ou não, processamos um luto. E a cada luto, uma parte de nós se entristece, se enrijece, vem à tona. Por isso não é possível acreditar que a tristeza não seja legítima.
Ela é tão legítima e presente quanto à alegria. E é normal senti-la assim, “do nada”, no meio de um dia comum.

Não percebemos, mas nos despedimos diariamente. Só assim crescemos. Qualquer escolha que fazemos, desde escolher o que vamos comer no almoço até decidir os rumos de um relacionamento, implica em uma renúncia também. E o luto é vivido à cada frustração, decepção, medo, ansiedade, angústia, tristeza de um dia rotineiro.

Quando escolhemos sair de casa de manhã para trabalhar, vivemos o luto de trancar as portas, despedir dos filhos, parceiros… e seguir nosso itinerário. Com sorte, temos um trabalho, uma escola pra ir. Nos envolvemos em nossas demandas e de vez em quando sentimos os pensamentos zapearem em saudades, em excesso de passado, em culpa. Convivemos com o luto de nossos pensamentos, com as consequências de nossas escolhas. Tudo flui naturalmente e quase não percebemos os sacrifícios, as concessões, as decepções _ partes do processo natural _ e nos incomodamos quando nos percebemos tristes. Como se isso não fizesse parte da vida; como se a tal “ditadura da felicidade” nos impedisse de entrar em contato conosco mesmos.

O luto faz parte, e é necessário. É claro que não vamos passar nossos dias analisando nossos pensamentos, diagramando nossas frustrações, contabilizando nossas renúncias. mas podemos aceitar nossas limitações, ser condescendentes com nosso tempo, tolerantes com nossas demoras.

Somos todos meninos temendo perder o dentinho de leite. Mesmo que tenhamos encarado essa fase com otimismo e coragem, certamente virão outros “perrengues”; porém, a esperança é que _ como disse Caio F. Abreu_: “É da natureza da dor parar de doer”…

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Fabíola Simões
Nasceu no sul de Minas, onde cresceu e aprendeu a se conhecer através da escrita. Formada em Odontologia, atualmente vive em Campinas com o marido e o filho. Dentista, mãe e também blogueira, divide seu tempo entre trabalhar num Centro de Saúde, andar de skate com Bernardo, tomar vinho com Luiz, bater papo com sua mãe e, entre um café e outro, escrever no blog. Em 2015 publicou seu primeiro livro: "A Soma de todos os Afetos" e se prepara para novos desafios. O que vem por aí? Descubra favoritando o blog e seguindo nas outras redes sociais.



4 COMENTÁRIOS

  1. Meu filho tem doze anos, aparelho nos dentes, minha altura e atitudes de adulto. Toda fase tem sua beleza e seus desafios. Mas, talvez por tantas mudanças estarem acontecendo tão rapidamente, eu ando meio ‘de luto pela infância (dele) perdida’… Entre os pequenos ou grandes lutos diários, como você tão bem colocou, esse é o que tenho sentindo mais. Talvez por isso, ainda duas noites atrás, no meio de uma história qualquer de um sonho que eu estava tendo, meu filho me apareceu. Fiquei maravilhada e surpresa porque ele tinha, de novo, seus quatro aninhos. Seus dentinhos de leite me chamaram a atenção. Eu o peguei no colo, rodopiei, abracei muito, enquanto ele sorria seu sorriso infantil. Eu sabia que aquela oportunidade de tê-lo assim, pequenininho, logo acabaria. Então, querendo registrar para sempre seu sorriso de dentes de leite, tão lindo, tentei tirar uma foto, mas a máquina não batia. Aí, percebi que ela não batia porque aquilo era só um sonho. Acordei com uma sensação gostosa igual àquela que a gente tem quando reencontra alguém muito amado, depois de muito tempo. Sua crônica chegou na hora certa. Obrigada! Adoro seu blog e sou sua fã! Um abraço.

  2. Oi Sheila! Puxa, que comentário lindo… Me tocou profundamente por partilhar de sua dor também. Uma dor diária, de nos despedirmos continuamente, não é? Meu menino está com sete anos, e cada gesto dele me comove, pois sei que daqui a algum tempo a inocência dará lugar ao amadurecimento; e isso é muito bom tb, mas não deixa de ser uma despedida, não é? Adorei sua reflexão e seu sonho foi de uma delicadeza tocante! Obrigada, um abraço!!!!

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