INCLASSIFICÁVEL

 O adolescente vai ao dermatologista com a mãe. Com o rosto coberto de espinhas, a voz desafinada e os braços que de repente cresceram depressa demais, o rapazinho senta-se em frente ao médico e é indagado sobre o que lhe incomoda. Antes que abra a boca e pronuncie qualquer palavra, a mãe se adianta e interrompe: “Sabe o que é doutor? Ele está incomodado com isso e aquilo, e então se sente assim e assado e isso atrapalha aqui e ali…”
(…) O médico se perde nas palavras da mãe, ensurdece diante de sua versão detalhada do filho, e olhando o garoto com o canto dos olhos sente compaixão e empatia pelo rapaz _  não exatamente por causa das espinhas…

A mãe _ com a melhor das intenções _ acredita conhecer o filho mais do que ele mesmo.
Classifica-o como tímido, incapaz de retratar seus problemas, imaturo e até um pouco fraco.
Faz seu diagnóstico, assina e carimba.

O menino cresce acreditando na versão da mãe. Sem perceber, aceitou a máscara que ela gentilmente lhe ofereceu. Em troca, ficou dependente de sua aprovação, de seu “sim” silencioso e cheio de significados.

Infelizmente nos habituamos e permitimos ser classificados. Ouvimos o que os outros têm a dizer sobre nós e acatamos os papéis. Não ousamos duvidar do veredicto, não questionamos remover as máscaras _ nem quando pesam sobre nossa realização.

Desejo ser como Ney Matogrosso _ INCLASSIFICÁVEL.

Que não julguem nem classifiquem minha personalidade, não elaborem diagnósticos a meu respeito;

Que me permitam ser conhecedora de mim mesma e nunca rotulem ou idealizem minha natureza;

Que me aceitem, não tentem me transformar no que lhes satisfaz mas me rouba de mim;

Que entendam minhas mutações e permitam minha evolução;

Que não acreditem naquilo que vêem com os olhos _ O essencial é invisível…

Que não haja sofrimento perante meu mistério, minha introspecção…

Que tolerem o que há de mais belo em mim: minha singularidade. O instrumento único que sou e que dá sonoridade à orquestra;

Que respeitem minha alegria camaleônica, meu humor de fases;

Que minha aparência não seja motivo de discórdia, que aceitem meu cabelo oscilante de acordo com a previsão do tempo e as fases da lua;

Que eu não seja exorcizada toda vez que infringir regras sem sentido ou transgredir modelos pré-fabricados;

Que eu possa silenciar de vez em quando e perder o juízo invariavelmente…

Acima de tudo peço que não me idealize, pois terei que ser perfeito para você e o medo de te decepcionar me afastará de mim…

Não projete seus sonhos em mim, a realização é pessoal e intransferível…

Num mundo bombardeado por clichês e estereótipos, seres etiquetados e padronizados, ser livre requer luta e empenho. Empenho diário em ser fiel ao que existe por trás das máscaras.

Ao classificar a realidade, as pessoas e as coisas, colocamos tudo dentro de pequenos cativeiros. Construímos prisões para os outros e nos encarceramos também. Criamos limites, celas, grades que nos separam daqueles que julgamos diferentes, e portanto, impróprios para o nosso convívio.

Etiquetamos nossa cor, nosso colágeno, nossa posição social, nossos bens, nossa reputação, nossa opção sexual “normal”, nossa religião perfeita, nossa família ajustada, nosso partido político coerente.
Não permitimos mudanças, ponderações, diferenças. Somos intolerantes com quem fica “em cima do muro” _ como se parar para pensar fosse crime…

E assim vivemos, seres perfeitos, imutáveis, imaculados, acima do bem e do mal.

Subimos em nossas torres e lá observamos o “mundo perdido”, sem perceber que perdidos estamos nós, solitários em nossas celas, aprisionados em nossas máscaras e cheios de “opiniões”…

“Somos o que somos, inclassificáveis…”

 

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Fabíola Simões
Nasceu no sul de Minas, onde cresceu e aprendeu a se conhecer através da escrita. Formada em Odontologia, atualmente vive em Campinas com o marido e o filho. Dentista, mãe e também blogueira, divide seu tempo entre trabalhar num Centro de Saúde, andar de skate com Bernardo, tomar vinho com Luiz, bater papo com sua mãe e, entre um café e outro, escrever no blog. Em 2015 publicou seu primeiro livro: "A Soma de todos os Afetos" e se prepara para novos desafios. O que vem por aí? Descubra favoritando o blog e seguindo nas outras redes sociais.

9 COMENTÁRIOS

  1. Olá, adorei seu blog, e li seu texto, muito bom , reflete a verdade, tem pessoas que usam máscaras para disfarçar, tem pessoas julgam sem saber o que somos.A verdade é que a mídia também contribui para as mudanças de vida, ou seja, praticamente todos tem que vestir igual, entre outras coisas.

    Ficarei honrada se vc puder vir ao meu blog.
    Vou te seguir ok.
    Tenha um lindo dia.Nati

  2. Fico feliz em perceber que certas pessoas,
    como nós, têm a capacidade de reconstruir para recomeçar.
    Isso é sinal de garra e de luta, é saber viver, é tirar o
    melhor de todos os passageiros.
    Agradeço a Deus por você fazer parte da minha viagem,
    e por mais que nossos assentos não estejam lado a lado,
    com certeza,o vagão é o mesmo.
    Com saudades desejo um feliz Domingo,
    beijos na sua alma carinhosamente,Evanir.
    A Viagem..

  3. Qualquer um que se atreva a escrever é inclassificável. O escritor comete todos os erros e partilha de todos os defeitos da humanidade, menos um: da covardia! Escrever, como disse Clarice Lispector, é se ridicularizar, é uma "maldição".

    Parabéns, excelente texto!

    Maurílio Ribeiro da Silva

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